Desde que a cantora Damares estourou no Brasil inteiro com a canção “Sabor de Mel” que essa música virou alvo de duras críticas principalmente nas redes sociais, acabando rotulada como música que enaltece a vingança. Muitos chegam a afirmar que a música é carregada de heresias e vai contra os ensinamentos cristãos. Seria excesso de zelo ou hipocrisia mesmo?
A Bíblia possui66 livros, totalizando exatamente 31103 versículos que podem ser usados a bel prazer de qualquer um para fundamentar sua linha de raciocínio. Tudo depende do interesse de quem está fazendo a fundamentação. Assim como há os que usam para criticar a música, farei o mesmo para dizer que tem gente engolindo camelo e se engasgando com mosquito.
Aproveitando que o nome da nossa amada coluna é “Limão com Mel”, resolvi analisar essa doce canção, buscando compreender os motivos de tantas críticas. Vamos lá!
O primeiro motivo de crítica é o fato da canção enaltecer a vitória, a conquista. Até parece que o fato querer ser vitorioso é algo infame para os “humildes servos de Deus” na atualidade. Fico imaginando qual ser humano não quer vencer? Não se trata de pisar no próximo, mas de vencer por mérito próprio. Qual o problema nisso?
Claro que vão dizer que o problema não é a vitória, mas a importância que esta toma em nossas vidas. Não servimos a Deus pra sermos vitoriosos (oi?). Em uma análise publicada em 2010 em um blog, o autor do texto comenta o seguinte:
“O motivo da crítica não é pela suposição de que as “vitórias” não estão nos planos de Deus para nossas vidas, mas que nem de longe este fato trata-se da ênfase do Evangelho de Cristo. O evangelho realça a cruz, a renúncia, a santidade e a necessidade de salvação para a vida de todo ser humano e isso sim é a vitória verdadeira. Todo e qualquer outro modelo de vitória trata-se de um assunto periférico.”
Algumas considerações: o autor está analisando uma música ou todas as músicas cristãs ao mesmo tempo? O autor acredita que uma música verdadeiramente cristã precisa necessariamente abordar a cruz, renúncia, a santidade e a necessidade de salvação ou não se enquadraria no que o evangelho propõe? Porque sendo assim, há de se descartar boa parte do que foi e é produzido no nosso meio musical.
Outro blogueiro faz uma lista do que considera expressões equivocadas na música.
1. “Vão dizer que você nasceu pra vencer”.
Segundo o blogueiro, o homem não nasceu pra vencer, mas sim pra perder porque nasceu no pecado, baseando-se no versículo 5 de Salmos 51: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu a minha mãe”. Fico imaginando Deus após criar o homem à sua imagem e semelhança decidindo que o criaria pra perder.
2. “Que já sabiam porque você tinha mesmo cara de vencedor”
Segundo o blogueiro, a frase “está sugerindo que o ser humano pode ser vencedor sozinho, sem a Ajuda do Alto”. Podemos escolher o ângulo que quisermos pra vermos o que quisermos certo? Pois bem. A palavra diz que somos luz, e a luz vence as trevas. Impossível que a luz passe despercebida. Somos filhos de Deus, imagem e semelhança dEle. Apesar da expressão um tanto clichê, não vejo onde o cristão ter cara de vencedor seja errado. Não temos cara de vencedor por nós mesmos, mas por quem está em nós. Em nenhum momento a música afirma que “temos cara de vencedor por nós mesmos”, mas que “vão dizer que”. O mundo pode não entender o porquê de sermos diferentes, por que temos cara de vencedor, mas nós sabemos bem o motivo. Acho que isso responde também a expressão “vai olhar e ver Jesus brilhando em você”.
3 “Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na benção vão se arrepender”.
Desconsiderando o Português, a música apenas externa algo que é natural de todo ser humano. As pessoas valorizam o que você tem, não quem você é.
Esse é o trecho onde pontuam que há sentimento de vingança. São duas situações distintas segundo o crítico:
“Primeiro: alguns crentes veem outros passando dificuldades e não fazem nada pra ajudar porque pensam “quero só ver esse crente sofrer”. Segundo – o crente que está passando lutas pode pensar “estou sofrendo e esses irmãos não me ajudam, mas eles vão ver só, quando eu estiver na bênção vão ficar arrependidos”, em outras palavras: “me vinguei””.
Vale ressaltar que a música não pontua que são outros crentes que vão se arrepender, até porque se fossem cristãos de verdade seriam amorosos, caridosos com o próximo fazendo o possível para ajudá-lo no momento da dificuldade. Segundo: mais uma vez o autor coloca palavras na boca do personagem da música. Se considerarmos a história de José, seus irmãos fizeram pior que isso. Jogaram no poço, o venderam como escravo. Mas quando a fome chegou e eles tiveram que buscar provisões no Egito e ficaram sabendo que seu irmão, aquele mesmo que eles deixaram ser levado como escravo havia se tornado o segundo homem mais importante de todo o Egito, se arrependeram. “E disse José a seus irmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus irmãos não lhe puderam responder, porque estavam pasmados diante da sua face” Gn 45. 3. Então…
4 “Vai estar na plateia e você no palco”
Esta é uma das expressões mais criticadas pelos puritanos. Impressionante como as pessoas detestam o palco. Ninguém genuinamente cristão faz questão do destaque. Aliás, pra que púlpito nas igrejas com aquelas cadeiras acolchoadas enquanto o “resto” da igreja senta em bancos duros e desconfortáveis? Mas focando no assunto, a expressão é análoga à outra mencionada por Davi no Salmo 23: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos”. Crente tem inimigo? O homem segundo o coração de Deus tinha… É clara a mensagem de Davi: Deus o exaltaria perante os seus inimigos. Ambas as metáforas, Mesa/palco são equivalentes. “perante mim na presença dos meus inimigos” não denota que os inimigos estão de “expectadores/plateia?”.
5 “Mas minha vitória hoje tem sabor de mel”
Para o autor: “Esse refrão isolado não sugere perigo algum, mas ele está inserido no contexto das demais expressões acima. E a repetição exagerada reforça a ideia de vingança, como se dissesse: “veja meu irmão inimigo {se é que pode}, eu venci, eu venci, veja, me vinguei”.”
Ou pode ser apenas uma forma de dizer o quanto foi bom vencer, ou quão boa foi a vitória dada por Deus. Mirian por exemplo, dançou e cantou. Será que os egípcios se sentiram ofendidos com a manifestação de alegria pela vitória concedida por Deus ao povo de Israel sobre o exército egípcio? Fico imaginando esses críticos santos e humildes no lugar de Mardoqueu tendo que passar pelo “sacrifício” de ser honrado pelo Rei Assuero, passeando montado num cavalo real pelas ruas da cidade com coroa e vestes reais e o maior inimigo dele e de seu povo tendo que aclamar “Assim de fará ao homem de cuja honra o rei se agrada!”
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