Anunciando a primeira série da Fronteira, Musicografia é uma novidade da coluna. Unindo biografia, inspirações próprias e conhecimento musical e artístico, a presente série busca abordar músicos da cena brasileira e internacional, envolvendo suas obras, músicas, e trabalhos, estudando-as e trazendo pensamentos sobre.
No primeiro texto da Musicografia, abordarei um compositor singular e bastante recente. Em 2011, foi lançado o que para mim representa um artista fora dos padrões e clichês evangélicos. Nesse ano, o cantor mineiro de Belo Horizonte, Bruno Branco, desponta com excelentíssimo trabalho Lado a Lado, e para completar a discografia, lança em 2014, o álbum Prato & Sino.
Integrando a playlist de artistas folk na cena cristã juntamente com Marcela Taís, Os Arrais, e Eduardo Mano, o músico com influências do folk, pop rock e MPB, tem a habilidade de criar belas canções, ricas em poesias e arranjos que conseguem carregar o feeling de suas letras. Desse gênero musical que tem surgido na cena do novo movimento, Bruno é indubitavelmente o melhor compositor.
Lado a Lado foi arranjado para ser um álbum totalmente voz e violão, independente, usando da simplicidade desse tipo de produção. Porém, mesmo seguindo esse tipo de estilo musical, Branco conseguiu fazer algo épico, com grandes músicas. A proposta do álbum foi devidamente cumprida, desde a primeira canção até a última.
Analisando as faixas deste projeto, “Reforma” é a melhor do disco, expondo uma brilhante letra sobre o verdadeiro sentido da transformação de nosso ser: a capacidade de amar. Como diz a melodia, “os loucos que amaram mais acharam a pérola perdida, os loucos que amaram menos, odres velhos vinho desperdiça”. “Simples”, “Canção pra Você”, “Flores” e “Vermelho Escarlate” são outras canções magníficas e geniais. “Saberás” e “Palavras Soltas” são também belas e feras produções. A faixa título, “Lado a Lado”, é uma boa composição, mas não chega ao nível das outras canções do mesmo álbum.
No álbum Prato & Sino, Bruno Branco fugiu da proposta folk do álbum anterior, e com a distribuição da Som Livre, resolveu usar instrumentos elétricos. O resultado que se originou de sua criatividade foi algo totalmente diferente do Lado a Lado, mas manteve o nível de qualidade artística. Preenchido por ótimas camadas de guitarra, o disco soou uma mistura de folk, pop rock, blues e MPB. É impossível dentro de sua carreira eleger uma canção ruim. As melhores de Prato & Sino foram duas composições espetaculares: “Brasília Líquida” e “Pedro Jorge”. “Brasília Líquida”, com ressalvas ao trecho grudante “Ainda temos sede de mais”, onde a combinação do instrumental com a voz do cantor foi perfeita, transmite um sentimento de como estamos correndo atrás de coisas tolas e vazias, como a canção inteira consegue expor. “Pedro Jorge”, uma criação à lá “Faroeste Cabloco”, apesar da diferença musical, segue a mesma proposta de crítica social, principalmente ao “clube social evangélico”.
“Pai Nosso”, “Prato & Sino”, “Amor”, “Honra”, “Da Flor” são também magníficas músicas. “Cultura Nova”, “Mainstream”, “Rio” integram o álbum como ótimos lançamentos do álbum. “E Agora, José”, “Onde Estás” e “Luz” se juntam ao resto como belíssimas canções também. O álbum em si ganhou uma boa dose de crítica contra a nossa cultura de conceitos líquidos, superficiais, uma espécie de conteúdo sem base, contra o comércio do Evangelho e continuou com o toque poético do primeiro álbum.
É difícil escolher qual álbum é melhor, pois são construções musicais com perspectivas diferentes que atingiram com perfeito sucesso o seu devido objetivo, mas o primeiro conseguiu atingir melhor a meta, reunindo canções que ficam quase no mesmo patamar de qualidade musical.
Apesar de ser dono de uma potente voz e de ser um ótimo compositor, Bruno não considera-se como cantor, porém como poeta, é o que diz o próprio em entrevista ao site da Lagoinha: “Não queria seguir a carreira, tanto que até hoje não me enxergo como um cantor, me vejo como um poeta e uso a música para transformar o que sinto e o que penso em uma linguagem mais acessível”.
Como músico, o mineiro tem muitos talentos, toca violão, sua voz é singular, com um timbre mesclando a rouquidão, com tons mais graves e agudos em certas partes, além de ser e é um brilhante compositor. Bruno Branco começou a sua história discográfica com dois ótimos CDs. E, tem tudo para continuar o belo trabalho que começou.
Playlist da semana: Pedro Jorge, Simples, Flores, Vermelho Escarlate, Brasília Líquida, Canção pra Você, Reforma, Saberás, Amor
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