Rocklogia – Este Lado para Cima e as polêmicas de Zé Bruno

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Após o lançamento de Ainda não É o Último, como dito, a agenda do Resgate continuou a aumentar, e os compromissos de Dudu Borges também. Enquanto isso, comemorando os vários anos de carreira, a banda decidiu revisitar os seus discos antigos e fazer um greatest hits definitivo: Pretérito Imperfeito, mais que Perfeito. Para quem já teve a oportunidade de conferir a obra física em mãos, nota-se que o acabamento foi interessante, com fotografias antigas, depoimentos e o repertório bem escolhido e remasterizado. Mais que uma coletânea, a obra é praticamente um documentário sobre o Resgate.

Nesta época, Dudu Borges forneceu uma entrevista ao Super Gospel, e afirmou que cada vez mais seu tempo para a banda estava diminuindo. Borges passou a faltar vários shows, e teve que deixar o grupo para dedicar-se à sua crescente carreira de produtor musical. E não preciso dizer que o Resgate perdeu muito com isso, mas Dudu também perdeu. Afinal, sua atividade no rock lhe rendeu grande parte da sua formação e experiência musical, tanto como instrumentista, quanto como compositor.

Após a saída de Dudu, quem produziria um disco de respeito do Resgate? Só restou um nome: Paulo Anhaia. O produtor de On the Rock, após dez anos de Eu Continuo de Pé, estava de volta assinando um disco do quarteto. Acabou que a sonoridade também se tornou mais crua, voltada ao hard rock, em relação às influências pop trazidas por Dudu.

As gravações do disco se seguiram durante o inverno de 2012. Em junho, a bateria para o disco, e depois o baixo, foram gravados. Um ponto a salientar é que, pela primeira vez, as sessões de gravação e produção foram detalhadamente filmados e divulgados no canal da banda. E este trabalho com a internet é um dos pontos positivos do Resgate em seus últimos anos.

Ao contrário do disco anterior, este trabalho conteria mais material individual de Zé Bruno, que aliás, envolveu-se em várias polêmicas por conta de algumas afirmações ácidas, as quais também são parte do conceito do disco Este Lado para Cima. A primeira delas foi na semana de lançamento do disco. Zé divulgou um texto na página da banda, chamado Quero Ganhar o Troféu Promessas, com críticas diretas ao prêmio e a toda forma e estrutura do chamado ‘mercado gospel’. Um dos trechos, falando sobre versões, irritou uma legião de fãs do Diante do Trono, que se juntaram em peso para promover ataques a Zé Bruno nas redes sociais. O fato foi notícia aqui no site e até entrou na lista das maiores polêmicas de 2012.

É claro que as críticas não ficaram por assim mesmo, e no Troféu Promessas 2013, o Resgate não foi candidato em nenhuma das categorias. Foi decidido pela comissão organizadora que a banda seria banida do prêmio.

Após a primeira polêmica, o músico fez uma segunda parte do texto, parafraseando a canção “O Pulso”, dos Titãs. Este texto, curiosamente, foi excluído das redes sociais, mas você pode lê-lo aqui. O disco foi lançado durante a Expocristã 2012, no dia 27 de setembro, e é um dos discos mais conceituais da banda. Este Lado para Cima é um álbum que retrata a importância de nos desligarmos deste mundo terreno e caminharmos em direção ao céu. As letras seguem o que o Resgate fez nos últimos anos, mas trazendo críticas mais explícitas. O destaque foi para “Eles Precisam Saber”,  com uma crítica contundente ao neopentecostalismo, como um todo.

Falando em “Eles Precisam Saber”, nas gravações do álbum, o guitarrista da Oficina G3, Juninho Afram, participou no solo explosivo da música, mas a gravadora MK Music não permitiu que fosse lançado. Por conta disso, Zé e Hamilton regravaram o trecho.

Numa entrevista ao Missão Gospel, Zé Bruno falou um pouco sobre o conceito do disco:

Acho que a própria fase que a gente está vivendo, no meio apologético, de recomeço, da nossa fé, do nosso cristianismo, acabou desembocando, Fora do sistema, Eles precisam saber, falando um pouco da missão como Eu estou aqui, Errando e aprendendo. Resgate nunca foi assim uma banda muito comum, e como agora estamos também em um momento pastoral, de igreja, de mudança, acabou que culminou nisso aí.” [Zé Bruno, sobre o álbum, 2013].

O lançamento do álbum foi gravado, e mais tarde tornou-se um DVD, de título Aos Vivos. Além dos sucessos, as faixas de Este Lado para Cima, muitas canções de Ainda não É o Último estiveram neste projeto. O Making Of deste projeto traz um pouco da história da banda, com seus membros a falar acerca de vários assuntos.

Em 2013, as polêmicas não diminuíram, e durante a Feira Internacional Cristã, no lançamento de Aos Vivos, uma entrevista da banda para a TV Boas Novas foi notícia pelas declarações de Zé, Hamilton Gomes e Marcelo Bassa. No vídeo, os músicos criticaram a forma que o cristianismo tem sido utilizado por instituições e afirmaram a necessidade de se ‘acordar’. Com todos estes acontecimentos, a mensagem do álbum soou mais contundente e contextualizada.

A mim, particularmente, Este Lado para Cima representa simplesmente a volta definitiva do Resgate a essência do rock. Não em termos de sonoridade, mas de discurso. A grande função do rock, em sua história, foi de transcender limites, denunciar e falar o que deve ser dito, conflitar com o sistema: e depois de muitos anos, o Resgate fez isso lindamente. O período de letargia da banda, que chegou ao seu ápice entre 2002 e 2008, não foi um período sem grandes canções, no entanto, o renascimento do grupo em seus discos mais recentes tem provado que nem tudo está perdido no meio musical protestante.

Confira, também, uma entrevista com Zé Bruno feita este ano para o Super Gospel.

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