Foto: Foto chocante de menino morto revela crueldade de crise migratória | G1
Deixando a “Estante de Livros” de lado, hoje vou tratar um assunto que repercutiu nessa semana: a foto de um garoto sírio que foi encontrado morto numa praia, mais um no meio de muitos refugiados da Síria. A publicação dela trouxe diversas reflexões por todo o mundo desde a semana passada. Montagens da fotografia, textos repletos de pensamentos sobre a morte desse menino se abundaram-se pela mídia e nas redes sociais. Porém, essa adversidade a qual a humanidade lida começou hoje? Só está acontecendo no contexto dessa fotografia?
Estamos nos relacionando uns com outros em um mundo extremamente violento e cheio de guerras. As notícias em torno dos povos árabes aumentam a cada dia, o terrorismo islâmico cresce, tensões entre a Rússia e os EUA explodiram alguns meses atrás e, para agravar a situação, a criminalidade e as violências regionais erguem-se como monstros contra a população urbana. Além das rixas e intrigas entre homens, enfrentamos diversos problemas ambientais causados pela próprio ser humano.
O fato é que estamos cegos pela negação, mecanismo de defesa psicológica que nega um fato que possa incomodar a sua própria existência, e pela falta de empatia. Os acontecimentos se enchem nas nossas mentes, causando uma disfunção narcotizante, uma anestesia total das reações humanas, uma letargia nas atitudes.
Matrix revela que a sociedade humana se encontra cega e tudo que ela mostra são meras projeções virtuais. Cada emoção ocasionada em nós por informações negativas, seja ela boa ou ruim, está na superfície de nossos olhos, porque não podemos realmente sentir o peso das notícias.
Onde está a empatia? Se realmente chorássemos com os que choram com outros “garotos sírios” da vida, talvez a situação não estaria tão crítica na nossa própria nação, onde crianças são entregues a violência, a marginalização, ao abandono dos pais, tanto no sentido criminal como o abandono dentro da própria casa, a prostituição e o trabalho infantil, a hiper exposição midiática, a publicidade exagerada, a pedofilia, etc. São casos que podem se encontrar no vizinho, dentro da nossa própria casa, porém nossa revolta permanece efêmera.
Permanecermos indignados com a injustiça, com as doenças éticas da sociedade, e culpamos Deus pelos problemas mundiais que cada vez mais bate na nossa porta, mas qual é a origem de todas essas desgraças senão nós mesmos? Nossa dor é politizada, vazia como argumentos; nossa moral é egoísta, baseada em pressupostos materialistas e em nosso próprio ser; nossa bondade e ética são individualistas, fundamentadas em conhecimentos sobre o mundo e no status “homem cultural”; nosso conceito de amor é superficial e passageiro, solidificados no interesse e felicidade própria; e nossas fronteiras são ilusões, somos todos iguais.
Para argumentar o que realmente a humanidade está passando, há um trecho do livro “O Futuro da Humanidade” de Augusto Cury exemplifica perfeitamente essa condição:
Marco Polo viu o rosto do amigo entristecer pouco a pouco. Nada o animava. Ligou a TV num programa de notícias para que ele se distraísse um pouco, mas piorou as coisas. Desde que saiu pelo mundo, Falcão nunca mais assistira à TV, apenas de relance.
Viu um repórter denunciando a fome na Etiópia, mostrando imagens de crianças magérrimas, em pele e osso, sem expressão facial, em profundo estado de melancolia. Quase não tinham força muscular para se movimentar. Deviam estar brincando, mas estavam morrendo. Falcão curvou-se, colocou a cabeça à frente do corpo e arregalou os olhos.
O repórter disse que, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentos), a cada cinco segundos morre uma criança de fome. Falcão, estarrecido, meneou a cabeça gritou:
– Não é possível! Estão deixando as crianças morrerem!
Em seguida, viu outra imagem fantasmagórica: um pai correndo e gritando desesperadamente com um filho sangrando no colo. Ele fora vítima de um ataque terrorista. As imagens que saltavam da tela pareciam mais loucas do que as alucinações que o perturbavam na sua fase psicótica mais drástica. E aquilo era real. Falcão começou a passar mal, Teve palpitações e suor excessivo.
Em seguida, observou a expressão facial do repórter que transmitia as notícias. Para seu espanto, o rosto não traduzia o drama da notícia, revelava apenas um ar de consternação.
Posteriormente, o mesmo repórter mudou rapidamente o semblante, abriu um sorriso e falou de um milionário excêntrico, que aparecia na tela acariciando seus cavalos em suntuosas cocheiras. Esta notícia penetrou como um terremoto no intelecto de Falcão. Estava incrédulo.
Percebeu que o processo de transmissão das informações destruía a afetividade dos espectadores. Fitou o jovem amigo e comentou incisivamente:
– Vocês não sentem asco por essa sociedade?
– Esses acontecimentos são péssimos! – confirmou Marco Polo.
– Péssimos? São horríveis! Vocês estão adaptados ao lixo social. Não se perturbam mais com eles!
– Não! Nós detestamos essas imagens!
– Seus olhos a detestam, mas suas emoções não reagem.
Marco Polo ficou abalado. Sentiu que Falcão estava coberto de razão. Embora perambulasse pelas ruas e presenciasse determinados tipos de sofrimentos, não tinha contato com algumas das mais repugnantes misérias cometidas pelo sistema. Sua sensibilidade não estava doente nem era exagerada, mas anestesiada, analisou.
Como estudante de jornalismo, conheço esse universo perfeitamente, a carnificina das pautas. Os dilemas do fato pouco importam ao jornalista, o que é importante nela é o seu retorno midiático. A fotografia não mostrou os mais obscuros pensamentos do noticiador e da massa: notícia boa é notícia que dá dinheiro para repórteres e informação tenebrosa e sensacional para o espectador. Sim, o que mais o jornalista quer é polêmicas e problemas, isso é lucro, o receptor gosta de assistir notícias apenas por ver, saber mais e mais, entrando numa profunda caverna de letargia mental. Não coloco em jogo a publicação da notícia, que foi de vital importância, mas os muitos interesses soturnos das almas que não são vistas naquela imagem.
Nesse enorme muro que levantamos entre nós, por fronteiras de países, ideologias, religião, visões políticas, e muitas outras divisões, vidas como a do garoto sírio serão machucadas e levadas pela sombra da morte, tornando toda a humanidade vítimas e cúmplices de um sistema de egoísmo e individualismo. Achamos que o inimigo mora no oriente, ou no norte europeu ou americano, mas ele está bem dentro de nós, em todos nós.
Referências
Marilena Henriques Teixeira Netto, Mecanismos de Defesa. Disponível em: <https://artigosdepsicologia.wordpress.com/2007/10/04/mecanismos-de-defesa/> Acesso em 08 de setembro de 2015.
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