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  • Melhores discos de rock cristão nacionais: 2000 a 2004

    Continuando a nossa lista de melhores discos de rock cristão nacionais, iniciamos o período dos anos 2000. É uma época em que os grandes dos anos 90 continuaram a “dominar”, e cresce uma certa ‘crise’ na cena. No entanto, ainda somos brindados com bons discos. Por isso, confira a nossa seleção, dominada por Brother Simion e Fruto Sagrado.

    Leia também as listas anteriores: Década de 70, década de 801990-1994 e 1995-1999

    [infobox title=’10º: Fóssil Praise’]Artista: Luciano Manga
    Ano de lançamento: 2003
    Número de faixas: 12[/infobox]

    Luciano Manga - Fóssil Praise - 2003Jhonata: Esse disco me parece uma mistura simples e preguiçosa do bom hardcore norte-americano da época, música cristã contemporânea dos anos 80 e uma tentativa de pôr um rock nacional no negócio (entenderam?). Não é um álbum ruim como um todo, mas particularmente não gostei… é isso!

    João: A inclusão desse disco é bem-vinda. Um raro álbum de releituras de grandes músicas antigas no universo “gospel”, muitas da era pré-gospel, como as do mestre Adhemar de Campos (“Leão da Tribo de Judá” e “Nosso General”) e do VPC (“Somos Convidados”), além de boas versões para “Valéria” e “Naves Imperiais” da sua ex-banda Oficina G3. Poucos sabem o valor que esse disco possui, infelizmente meio que passou despercebido no início dos anos 2000 e a explosão do pseudo-rock “congregacional” (argh!) e os grupos de worship & praise cópias de Hillsong e os de “louvor jovem”. O rock gospel nessa época produziu muita banda boa, como Pontocom, Escarlate e similares, mas que ficaram tristemente relegadas ao esquecimento pela mídia evangélica.

    Márllon: Apesar de hoje em dia não o escutar tanto, quando o conheci ele não saia de dentro do meu rádio. A proposta do disco é algo que sempre gostei, pois como sou de berço Batista tradicional, estava mais do que acostumado com a grande maioria desses hinos e ouvi-los nesta roupagem foi bem bacana, principalmente porque eu estava começando a me interessar pelo rock em si. Tive o prazer de conhecer pessoalmente Eval Arantes, da banda Escarlate (que fizeram o instrumental do disco) e ouvi várias histórias sobre a produção do mesmo. Triste foi saber que as guias originais foram perdidas 🙁

    Thiago: Fóssil Praise do Luciano Manga é uma mistura de regravações de clássicos, como a “Paz do Senhor”, do Rebanhão, e canções com a banda Oficina G3. Hard rock, new metal e punk rock são encontrados nesse álbum. Eu não votei nele e, pessoalmente, não sou o melhor juiz para julgar se esse álbum deveria ou não estar aqui, mas a posição é justa, se estivesse mais acima seria injusto.

    Tiago: Fóssil Praise é o disco mais simples desta lista: Luciano Manga revisitando canções que por si só são ótimas. O cantor, ex-vocal do Oficina G3, desempenha bons vocais e faz versões interessantes junto a banda Escarlate. É o seu melhor trabalho solo e gostei demais por vê-lo aqui.

    [infobox title=’9º: O Segredo’]Artista: Fruto Sagrado
    Ano de lançamento: 2001
    Número de faixas: 13[/infobox]

    Fruto Sagrado - O Segredo - 2001Jhonata: Sem comentários.

    João: A todo momento que li essa lista me perguntei “O QUE ESSE DISCO FAZ AQUI?” Só isso tenho a dizer. OK, representou uma mudança na sonoridade do Fruto, que muitos amam essa fase dos anos 2000 (e eu tenho ojeriza), mas basicamente é um disco muito confuso. Só gosto de algumas faixas, e mesmo assim elas são muito desconexas.

    Márllon: Ah, aquelas prensagens promocionais de R$ 6,90 da Top Gospel (risos). Aqui a gente encontra de um tudo: pop rock, forrock, baladas, rap metal e por aí vai. Pode parecer mais um balaio de gatos, só que aqui a coisa é bem feita, com destaque absoluto para “O Novo Mandamento”, que, se fosse lançada por uma gravadora de maior porte, iria enjoar de tanto que seria tocada.

    Thiago: Muita gente pode discordar desse álbum ter figurado aqui, mas eu o considero uma boa produção. O Segredo representa uma nova mudança no estilo da banda, que vinha de uma obra diferente e baseada no metal progressivo, para o new metal, época em que o gênero estava na alta. Os trabalhos posteriores foram guiados pela mesma pegada. Há quatro canções que foram nesse caminho: “A Mensagem,” com seus riffs velozes e o bom solo de guitarra; “No Porão da Alma”, uma das melhores do disco, que tem peso e uma boa letra; “O Segredo”, o qual curti muito o arranjo de violão colocado; e “The Time Is Over”. “Forrock”, a melhor do disco, mistura o forró, o hardcore e o rock, aquela coisa à lá Raimundos, com uma crítica política, que soou, em parte, pouco profunda. O disco é recheado de baladas. Tem “Livre Arbítrio”, que é uma boa canção sobre perdão e pessoas desviadas, “O Impossível”, com a clássico ambiguidade amorosa da banda, mas essa é declaradamente a Deus e “A Resposta”. “O Novo Mandamento”, quase a melhor do disco, é uma balada que tem uma bela letra sobre o amor cristão, o novo mandamento, e uma boa crítica ao denominacionalismo e divisão no Reino de Deus. O grupo finalmente conseguiu se encontrar nas canções românticas (o que produziam do assunto era muito estranho) e “Love’n Roll” representa essa boa produção. A partir desse disco, o violão começou a ser mais usado e os teclados de Bênlio quase abandonados. Ainda contém três faixas instrumentais. Bom disco, eu diria que até merecia uma posição melhor.

    Tiago: Sinto sempre que há um apelo pró-FS e anti-FS nestas listas… desta vez, a galera anti-FS tem razão: O Segredo não merece estar entre os dez. É um disco sem um conceito bem trabalhado, um pouco preguiçoso e é conduzido como vai. Nem se compara a Na Contramão do Sistema (1993) e O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar (1995).

    [infobox title=’8º: Metal Nobre III’]Artista: Metal Nobre
    Ano de lançamento: 2001
    Número de faixas: 10[/infobox]

    Metal Nobre IIIJhonata: Eu nunca gostei de Metal Nobre e, sinceramente me envergonho disso, porque na minha concepção musical, é necessário ter um motivo convincente para que o teu “não gosto” faça sentido para quem gosta. Mas, ouvindo esse álbum, entende-se um pouco o porquê há uma galera que gosta da banda: a única resposta que encontrei foi guitarras. Talvez para uma banda, sei lá, de hard/heavy metal, as guitarras sejam óbvias e eminentemente necessárias, mas os meus caros colegas terão que concordar comigo que o mínimo que esperamos de um grupo de rock são GUITARRAS. Então, considerar isso como um ponto para indicá-la nessa lista, seria de uma piada imensa. E esse deve ser o momento em que eu chego e digo: “porém, esse álbum é bom”, certo? Errado. Pra quem me conhece sabe o quanto sou chato com letras, e a lírica desse disco é uma piada, né gente? Imaginei meu irmão de 8 anos escrevendo isso. Sem mais…

    João: Particularmente eu prefiro o disco Revelação do MN, mas esse foi o primeiro disco que eu ouvi da banda, e realmente é ótimo (só não sei se tanto pros 10 mais, e se nos 10 mais, não sei se oitavo seria o correto). Não é tão “metálico” como os dois primeiros, mas rende momentos fantásticos. “Mensageiro” por muito tempo foi meu hino de guerra (risos). “Paraíso” com uma pegada meio rockabilly deixou o disco muito dançante. As baladas “Só Há um Deus”, “Volte” (que originalmente era da banda Akza) e “Vou Confiar” não são aquela coisa pedante e grudenta que muitas bandas fazem, o “Corinho” é bem divertido medley de canções clássicas (o MN ama fazer essas viagens no tempo) e as músicas “Apocalipse” e “Servo de Deus” garantem os momentos mais “metalheads”. “Blues 121”, outra regravação, dessa vez da antiga banda do JT, Kadesh (que virou Virtud anos depois), ficou bem melhor que a versão original, mais na linha do hard blues.

    Márllon: Nunca gostei do som do Metal Nobre em estúdio. Aliás, o único CD que realmente gosto deles é o ao vivo que foi lançado em 2002 e que tem parte de seu repertório baseado nesse disco, que, para mim, não fede nem cheira. Respeito o grupo e quem curte o seu som, mas não é pra mim.

    Thiago: Na lista de 95-99, afirmei que a entrada do Metal Nobre na lista seria mais justa que a do Rosa de Saron e acabou que  ela ficou de fora. Nesta lista, agora penso o contrário: MN não deveria estar aqui em comparação a outros discos e o Rosa de Saron poderia ter ocupado essa posição. Musicalmente, é um álbum bem produzido, com algumas canções de hard rock bem legal, como, por exemplo, as brilhantes “Mensageiro”, “Servo de Deus” e o blues rock de “Blues 121”, e “Apocalipse”, “Paraíso” e “Corinho”, mas as letras da banda e algumas baladas açucaradas demais a estragam.  Parece grupo de metaleiro gospel. Não há uma letra que se salva direito. E a voz de JT, que é até interessante, me dá mais ainda essa sensação. Não dá apara ouvir essa banda mais do que uma vez. Não é pelas repetições, no entanto é os mesmos assuntos e jargões tratados dentro do mundo do evangeliquês.

    Tiago: Metal Nobre é uma banda que tem uma importância enorme na descentralização do eixo Rio-SP, oriunda da região centro-oeste. OK, mas até hoje nenhum disco deles chega a impressionar. Metal Nobre III é um desses. Definitivamente, preferiria o solo Na Estrada, de Walter Lopes, no lugar. É um trabalho muito melhor e que quase ninguém se lembra.

    [infobox title=’7º: Na Virada do Milênio’]Artista: Brother Simion
    Ano de lançamento: 2000
    Número de faixas: 13[/infobox]

    Na Virada do Milênio - Brother Simion - 2000Jhonata: Sem comentários. Por mais que esse álbum tenha boas referências, continuo não gostando do tal Simion.

    JoãoBrother Simion é o sinônimo básico de uma música do Katsbarnea: “Revolução”. Pois bem, e esse disco realmente foi algo fora do comum. A sonoridade está bem naquela linha que todo mundo queria fazer “na virada do milênio”, aquela transa transcendental de “Era de Aquarius”, new age, música eletrônica e ambiente. OK, tudo isso hoje em dia além de soar brega pra caramba é muito tosco, mas naqueles tempos era algo completamente novo, e o Simion soube se encaixar nessa viagem doida inteira muito bem. Lamento profundamente não ser um frequentador de bancas de revistas naquela época, pra comprar o disco direto de uma delas, outra novidade que infelizmente (ou não) ficou só com o Brother mesmo, quando ele lançou esse disco pelo selo do Lobão (outro louco incompreendido por muitos). Fantástico. “Sede”, “Profecia” e aquela faixa lá cheia de números e puro noise a lá Revolution 9 dos Beatles são as mais top do disco.

    Márllon: Não curto a carreira solo do BS, próximo item da lista.

    Thiago: Na Virada do Milênio me provou o ecletismo musical do Brother Simion. O álbum, com influências eletrônicas, mistura o techno e o rock. Outro disco que não votei, não o considero melhor que outros da lista para estar aqui. O disco tem muitas letras muito interessantes, e até cômicas, como “É Preciso Mais”. As canções são bastante incomuns, devido a influência estampada da música eletrônica. É o álbum mais exótico da lista, isso é óbvio. “A Marca”, “Uai! Why?”, “Onde Encontrar”, “É Preciso Mais”, “Caos” e “Help” foram as minhas preferidas. Uma obra que tem um instrumental com nome “01001011” e uma faixa silenciosa sem título, com toda certeza, não é nada comum.

    Tiago: É um dos discos mais ousados que o rock cristão nacional já viu. Naquela altura do campeonato, nenhum cantor ou banda sabia melhor onde chegar além de Simion. Na Virada do Milênio é uma combinação de rock alternativo e techno. A capa e todo o projeto gráfico me faz crer que há muita influência de Matrix no negócio: as letras versam sobre o caos na sociedade em vésperas de um novo milênio, a tristeza, a solidão, numa sonoridade estranha, as vezes que te aproxima, por vezes te repele. É um disco bastante difícil de digerir. Talvez seja por isso que, por vezes, seja daqueles álbuns os quais você ama ou odeia.

    PS: Aquela foto de Simion, Ciça e Jadão juntos, denuncia tudo…

    [infobox title=’6º: O Tempo’]Artista: Oficina G3
    Ano de lançamento: 2000
    Número de faixas: 13[/infobox]

    Oficina G3 - O Tempo - 2000Jhonata: O Tempo tem boas letras, por mais que eu as ache pouco criativas. Juninho Afram segura a peteca do disco em vários momentos e deve ser por isso que o disco não se torna tão enjoativo. Indiscutivelmente, a faixa-título é a melhor do disco e ela vale por todo o resto. Se você ouvir só a faixa-título, você não precisa ouvir mais nada do álbum.

    João: Digam o que quiserem dizer: esse disco é muito bom. OK, é o nível mais extremo do pop que o Oficina G3 se enfiou, antes da tentativa TOSCA de sair daí com o Humanos (e outra tentativa muito mais bem-sucedida com o Além do que os Olhos Podem Ver), porém o disco é consistente, fácil de ouvir e curtir e certamente marcou uma geração inteira de fãs. Diversas pessoas que hoje amam rock cristão (e até vertentes mais pesadas como o punk e o metal) lá no início dos 2000 começaram nesse. É um disco legal, e também o primeiro a mandar uma banda cristã brasileira para o Rock in Rio (junto com Os Nazaritos – QUEM?) e pro TOP 20 da extinta MTV Brasil (quer dizer, isso se não contarmos com o Catedral na época do Para Todo Mundo). Não destaco faixas porque esse é um disco que vale a pena ouvir completo, da intro (uma das duas do Oficina desde q eles começaram com essa onda de intros que eu realmente gostei – a outra foi a D.A.G.) até à última faixa.

    Márllon: Hoje em dia nem escuto esse álbum, mas ele foi o responsável pela minha entrada (e de muita gente também) do mundo do rock. Falando através da nostalgia, é um álbum que foi muito especial, mas analisando friamente é apenas um pop rock comum e sem sal. Há alguns lampejos de criatividade aqui e ali, mas no geral fica muitíssimo aquém do que os músicos eram capazes. Aliás, o maior pecado desse álbum é dar início a praga que seria chamada de ‘Oficináticos’.

    Thiago: Muita gente deve ter rechaçado esse álbum para ele estar nessa posição. O Tempo, apesar de toda a crítica direcionada a fase pop rock da banda, é bom. Eu conheci Oficina G3 através da versão ao vivo desse lançamento e me tornei fã da banda. O disco representa uma mudança de estilo do álbum anterior, que era hard rock, para uma sonoridade pop rock, porém, não esse de fácil consumo que se apresenta no mercado, mas com mais técnica, cuja habilidade Juninho Afram, Duca Tambasco, Jean Carlos e Walter Lopes sabem esbanjar. Juninho Afram, seja em qualquer estilo, faz tudo da melhor forma possível, inovador, cheio de feeling nos dedos e no ouvido. As canções continuam tendo os típicos solos do guitarrista e também dos outros músicos. PG entra na banda, com a saída de Manga, para ocupar o espaço de vocal e, às vezes, de guitarrista base. As melhores são “Ele Vive”, “Atitude”, “Necessário”, “Brasil ” e  “Tua Voz”. A única realmente chata e horrível do disco, “Sempre Mais”, até começa com uma introdução bacana, mas é muito sonolenta e pedante no nível hardcore. “Preciso Voltar”, minha impressão é dualista, às vezes curto, às vezes detesto. As que eu não citei são todas boas. Esse disco merecia uma posição melhor.

    Tiago: O Tempo é um dos discos mais subestimados da Oficina G3. É pop, é açucarado, mas é a proposta feita com competência. Aqui o grupo mostra a proficiência em fazer baladas com um vocalista de grande habilidade para o gênero. PG entra com suas novas músicas (com aquele visual de quem quer ser o Bono Vox do cenário nacional). Mas no instrumental é Juninho Afram e Duca Tambasco que roubam a cena, especialmente com “Preciso Voltar”. Não consigo entender o porquê as pessoas, no geral, optam pelo Humanos, pior disco da banda. O disco sucessor faria uma mistura estranha e inconsistente de new metal com baladas pop rock. Foi cansativo, chato e pouco criativo.

    [infobox title=’5º: Seaquake’]Artista: Stauros
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 13[/infobox]

    Stauros - 2000 - SeaquakeJoão: Nunca fui muito fã desse disco do Stauros, não pelas letras em inglês (que são meio que um dogma no metal, então pelo contrário, é muito legal) ou pela sonoridade mais prog metal do que nunca (eu não sou tão fã desse gênero, mas esse disco não peca em excessos dreamtheatereanos), mas sim o vocal. Mil perdões ao Carlos César, que até que se esforçou no disco, mas Celso de Freyn é mil vezes melhor. Nesse mesmo ano uma banda menos conhecida, Getsêmani, lançou um disco também pela Gospel Records e o vocal se saiu bem melhor que o do César.

    Mas enfim, indo ao disco, os instrumentistas estavam mais inspirados que nunca. As faixas “Seaquake”, “Rusty Machine”, “Dance of Seeds” “Victory Act” e “Every Pain II” pra mim são as melhores do disco inteiro, fora a jornada de “The First Mile” e “The Second Mile” e a épica “Faith in the Arena”, com suas quatro partes, tornam o disco uma peça genial do metal progressivo (fora que a letra dessa última faixa é muito impactante por falar dos mártires cristãos). Quatro faixas desse disco foram lançadas numa coletânea da gravadora australiana Rowe Productions (do vocalista da lendária Mortification, Steve Rowe), junto com duas outras bandas do Brasil (Völlig Hellig, que mudaria de nome logo a seguir pra Belica, e a Light Hammer). Oficialmente, em 2000 quando a coletânea era planejada a mesma aparentemente teria mais bandas, mas só as três acabaram certas, o que foi ótimo pra elas, que apresentaram muito mais faixas pro mercado externo (o disco foi lançado na Austrália – edição limitada -, EUA e Brasil). Com isso o Seaquake acabou ficando bem conhecido no exterior, fazendo da Stauros a segunda banda de metal cristã mais conhecida do Brasil, depois da Antidemon.

    Márllon: Um álbum divisor de águas na carreira da Stauros. O vocalista da formação clássica não estava mais em sua formação, o estilo saiu do metal mais ‘clássico’ para algo mais prog e o português deu lugar ao inglês. De longe foi a fase onde a banda teve mais exposição, chegando a fazer abertura para o lendário Mortification em sua única tour pelo Brasil. A única cosia que me incomoda (e muito) é o timbre do vocalista César. Nos tons baixos ele arrebenta, mas chega os momentos mais altos e a coisa tende a incomodar. Gosto muito da faixa título, “Vital Blood”, das baladas “Every Pain II”, “Victory Act” e “Love in Vain”, além de “Faith in the Arena”, com claras influências de Metallica na fase do Black Album.

    Thiago: Seaquake esbanja heavy metal, metal progressivo e até thrash metal, de forma bem feita e a voz do tecladista César combinou bem com a proposta, apesar de destoar em algumas partes. Ao contrário da última produção, resolveu apostar em boas letras na língua inglesa. Eu faço parte da opinião que músico brasileiro tem que fazer música para o Brasil, porém esse disco consegue ser ótimo mesmo assim. Rusty Machine tem uma pegada que me lembrou da banda Metallica. The First Mile herda a mesma pegada. A balada “Victory Act” é inspirativa, com a camada de violão muito bem colocada. “Vital Blood” serve um prato de riffs cadenciados de guitarra, andando para o lado heavy metal. “Friendly Hand” caminha nos passos do “Vital Blood”, com guitarras bem melódicas. “Every Pain II” é uma exposição de progressividade que a banda sabe fazer. O disco também apresenta um banho de poesias bem escritas, com ideias bastante interessantes, como ter comparado o homem a uma máquina em Rusty Machine, e a bela letra da faixa-título. As canções citadas são poucas para o que Stauros proporcionou no disco. Foi justa a banda ter aparecido na lista.

    Tiago: Confesso que eu tenho preconceito com metal brasileiro em inglês. Engraçado né, geralmente é o contrário. Mas minha ‘birra’ é geralmente pela necessidade que muitas bandas possuem de se projetar internacionalmente, e pelo mau sotaque. Devaneios à parte, o disco da Stauros funciona. Demonstra uma clara mudança musical em relação ao anterior, tendendo para uma vertente mais progressiva, o que seria continuado em Adrift (2001).

    [infobox title=’4º: Eclipse’]Artista: Brother Simion
    Ano de lançamento: 2004
    Número de faixas: 12[/infobox]

    Brother Simion - 2004 - EclipseJhonata: Não, pera! Dois álbuns do tal Brother Simion na lista? Eu não estou entendendo. Será que existe algo de errado comigo que não consigo ver o que de tão sensacional tem esse cara? (desculpem, mas esse álbum é muito ruim).

    João: “Semideus, desce do pedestal, grande orador, grande negociador!” Com esses versos Simion traria de volta pro rock (no caso, o rock cristão, claro) aquilo que o rock sempre teve, a contestação. É notório que a carreira-solo do Brother, além de errática (os dois discos que separam esse do Na Virada do Milênio, lançados pela MK, são bem inferiores musical e liricamente), nunca conteve o espírito contestador do Kats. Mas nesse disco ele jogou tudo pro alto e voltou com letras mais urgentes, inclusive no “Prelúdio” do disco o aviso é dado: “À todos aqueles que transformaram igrejas, o corpo de Cristo, em empresas, e se acham proprietários daquilo que só a Deus somente pertence!” Um aviso bem direto do que vai se ver aí: letras que falam da exploração de falsos pastores (Semideus), da miséria e pobreza  na sociedade (“10 Real”), e da necessidade desesperada dos homens por Deus, em faixas como “Ei, Amigo”, “O Despertar dos Loucos” e “Noite de Johnny” (inspirada num festival que o próprio Simion organizou por um tempo).

    Na linha do nu metal, estilo esse tão em voga no início dos anos 2000, causou estranheza decerto em muitos, e a selvageria de “Semideus” mostrou que o Brother estava mesmo antenado em tudo, sendo um dos primeiros “filhos do gospel” (embora teoricamente Brother foi um dos “pais” [risos]) a se rebelar contra a simplicidade do mercado e da sujeira de muitas instituições ditas “cristãs”.

    Márllon: Idem à sétima posição.

    Thiago: Brother Simion se confirma nesse disco como o músico mais incomum e inovador no meio cristão. Eclipse apresenta um novo experimento do cantor: new metal. “Semideus”, “10 Real” e “All Right” caminham nesse som. “Memorandum” tem influências desse estilo, apesar de eu considerá-lo mais metal alternativo. “Hotel Paradiso” e “Onde Deus Me Levar” oferece um rock alternativo de primeira. “Noite de Johnny” é influenciado pelo punk rock. Já “Perdoar” é um hardcore puro no estilo Simion. “Ei, Amigo” é a típica canção folk rock com toques de gaitas presentes nos álbuns antigos do Brother, contudo, distinta, numa pegada mais Eclipse. O mais interessante nesse disco foram as letras, contendo boas críticas a teologia da prosperidade (como é perceptível na introdução), e outras poesias inovadoras, como a da cômica “10 Real”. Aliás, com o “Prelúdio”, que parece tema de jogo de guerra, eu já estava esperando um álbum eletrônico, o que não aconteceu. Os efeitos desse tipo foram usados na obra, mas com equilíbrio.

    Tiago: Esse disco podia estar em terceiro (não entendo a “censura” que vocês tem com o Simion). O trabalho inédito de “despedida” do cantor, é praticamente um amontoado de novos temas aliados a uma certa dose de retrospectiva e nostalgia. “Semideus” é uma crítica maravilhosa ao neopentecostalismo, “Ei, Amigo” em relação aos conflitos em amizades, sem falar nas faixas em inglês que estavam tão sumidas nos discos anteriores, como “All Right”. Mas é em “Onde Deus me Levar” que você vê Brother olhando para trás e implicitamente dizendo: fui longe, essas décadas deram certo. Pena que o cantor não chegou a lançar ainda o álbum que gravou em 2012. Estamos aguardando, Johnny.

    [infobox title=’3º: Praise’]Artista: Resgate
    Ano de lançamento: 2000
    Número de faixas: 10[/infobox]

    Resgate PraiseJhonata: Eu acho uma tarefa muito difícil falar de Resgate. Não sei se já disse isso aqui, mas ela está na minha lista de artistas/bandas que ainda não decidi se mantenho ou deleto de vez do computador. Esse álbum é muito bom por suas referências do rock inglês e letras suficientemente agradáveis. O que não me entra são os títulos de álbuns que a banda escolhe pôr nos trabalhos.

    João: Fantástico. Eu não sei dizer muitas palavras desse disco. Ele me marcou demais. Esse disco me tornou fã do rock cristão para todo o sempre. O melhor disco da geração ‘praise’ brasileira, que seguiu bem os moldes dos Praises do Petra (apesar de não regravar músicas clássicas), sem ser meloso e trazendo o rock sem medo. Mais um disco que não dá pra destacar uma ou outra faixa, é um disco lindo demais e pra mim ESSE devia ser o primeiro. Mas fazer o que…

    P.S.: Paulo Anhaia, eu te amo! Ainda quero fazer um disco produzido por você! (risos)

    Márllon: Apesar de não ser muito fã da fase “Renascer” do Resgate, esse é um álbum que aprendi a gostar com o tempo. OK, é bem leve, não tem o peso de um On the Rock da vida, mas acho que o principal fator qualitativo desse álbum se encontra nas letras, sendo a de “Ao Rei” a minha favorita. Não teve o meu voto, mas foi uma grata surpresa encontrá-lo aqui.

    Thiago: Com uma temática congregacional, servindo-se de bastante de coral, Resgate produziu Praise. O álbum é considerado um divisor de águas para a banda. Nesse disco, combinaram duas coisas que posteriormente viria dar muito certo na banda: órgão hammond, piano e rock. E como essa combinação deu certo. O disco é legal, consegue atingir a proposta que teve. As guitarras, vibrantes, ficaram bem encaixadas com o disco. Eu gostei bastante dos riffs de guitarra – meio southern rock – excepcionais de “Nada Me Faltará”, o folk rock de “O Nome da Paz”. As outras faixas, mesmo não sendo citadas, foram boas. Um disco de 11 composições que não perdeu o embalo. Agora, para se estar no pódio da lista, pessoalmente, não mereceu a posição.

    Tiago: É um bom disco. Musicalmente falando, certamente é um dos mais importantes do Resgate. O som de toda uma década da banda, a partir de então, seria pautado no que alcançaram no Praise. Hammond, pianos se chocam as guitarras de Zé e Hamilton. Liricamente, me soa como o início de uma acomodação. Sugerida por Estevam Hernandes, a temática volta-se para canções de cunho congregacional. Algumas coisas no álbum caem perfeitamente, outras fogem levemente. Mas, no geral, há boas canções, como “O Nome da Paz”, “Infinitamente Mais” e “Sol do Meio Dia”. Mas prefiro o Resgate mais crítico, de 2010 para frente.

    [infobox title=’2º: O que na Verdade Somos’]Artista: Fruto Sagrado
    Ano de lançamento: 2003
    Número de faixas: 14[/infobox]

    Fruto Sagrado - O que na Verdade Somos - 2003Jhonata: Dizem ser um álbum pesado, concordo na medida em que forem me definindo a concepção de “pesado”. Não gosto de Fruto Sagrado, com exceção da canção “Superman”. Eu nunca entendi a proposta desse disco…

    João: Já falei o que eu penso dos discos pós-2000 do FS. Mas esse aqui é bom, tem algumas faixas legais pra pensar, como “O Sangue de Abel” e a faixa-título, mas não é nada demais pra mim.

    Márllon: Pra mim o campeão moral dessa lista, um disco que teve um papel de muita relevância no início da minha caminhada no rock. O impacto dessas faixas em mim continua o mesmo depois de mais de 10 anos de lançamento. “Desesperado” era a coisa mais agressiva que tinha ouvido até o momento. Não tinha ciência de quem era o FS, da sua discografia prévia ou das tretas, o que sabia é que esse álbum abriu minha mente para muita coisa dentro da música. Acho um trabalho diversificado e que tanto nas faixas mais leves ou pesadas a qualidade é o que sobressai. Clássico obrigatório na coleção de qualquer um.

    Thiago: O que falar de O que na Verdade Somos? É o meu disco preferido da banda. Bom, primeiramente, é um álbum excepcionalmente bom, embora tenha seus defeitos. Começo pelos defeitos e depois parto para os elogios. O disco é aberto por uma boa música que tem uma sonoridade new metal, mas a ideia dela é quase fajuta, não é coisa do Fruto Sagrado fazer. “Desesperado” é o tipo de composição nada haver de uma banda, mas chega a ser engraçado, com aqueles gritos inspirados em filmes de terror e de alguém endemoninhado. A mix de Sanguessuga ficou também completamente deslocada e sem sentido no disco. O segundo defeito do álbum é a letra de “Ninguém Me Encontrará Entre os Fracos” que se une à extrema hipocrisia que ocorria nos bastidores do FS. A figura de Marcão é extremamente marcada pelas máscaras que o rodeiam, em virtude de carregar a personalidade crítica da banda e ser cara de pau. Suas atitudes, suas provocações no grupo, as intrigas que ocorreram entre ele e Bênlio deixam o álbum, porém, principalmente essa música, com um ar de falsidade. Outro defeito (considero esse mais moral do que musical) foi o Bene Maldonado ter ignorado quase todos os teclados para o CD que Bênlio gravou. Enfim, depois desses problemas, o tecladista saiu da banda numa série de confusões virtuais e judiciais (com Marcão). O defeito central do álbum é isso, a hipocrisia.

    No entanto, mesmo tendo esse caráter polêmico por trás da produção, O que na Verdade Somos é uma superação. Essa obra conseguiu reunir toda a acidez e crítica na sua melhor forma, numa musicalidade que combinou. É o tipo de disco que gosto de comentar nos mínimos detalhes. Primeiro, as letras. A segunda faixa, “A Sanguessuga”, é uma das melhores músicas do FS, ou quase a melhor, difícil falar. Ela expõe uma ótima ideia sobre o vazio da humanidade, baseando se em uma passagem de Provérbios. A balada “Não Quero Mais Acordar Assim” já foi uma das minhas canções preferidas sobre solidão. É uma ótima produção, bem intimista. “De Deus não se Zomba” é o tipo exato de música que te dá vontade de quebrar algo, principalmente pela letra revoltante tratando sobre a opressão humana, fundamentando-se na passagem de Eclesiastes. Quando se fica confuso sobre o tema “ira divina”, essa canção é como uma luz sobre o assunto. Eles conseguiram repensar uma frase bíblica usada de forma tão clichê e conseguiu colocá-la de um jeito ácido, perfeitamente encaixada no contexto da letra, pedindo o fim de guerras humanas. “Vício”, como o título diz, fala sobre drogas. Essa faixa está aqui no CD por estar, é o tipo de composição que ocupa um disco para preencher o espaço. A faixa-título é excepcional. Novamente, tendo aquela dose aguçada de crítica religiosa, a balada constrói a ideia da falta de amor cristão: “Pra falar do amor tenho que aprender a repartir o pão, chorar com os que choram, me alegrar com os que cantam, senão ninguém vai me ouvir…”. O trecho final contém uma ótima reflexão sobre nossa condição, quem nós somos no mundo. A próxima faixa, até hoje penso se é a melhor do Fruto Sagrado, mas uma coisa não tenho dúvida: é a melhor canção de natal que eu já ouvi. “Uma Noite de Paz” mandou uma crítica social e religiosa para lá de surpreendente, usando o tema natal. A canção ficou simplesmente perfeita. “Involução 2003” demonstra uma crítica mais social e política do que as demais, porém não carrega o feeling das outras. “O Sonho do Profeta” é interessante, um tipo de música que busca reanimar inertes para viver o Reino de Deus. “Diferente dos Anjos” carrega a clássica ambiguidade da banda, quando quer se falar de amor. Parece ser uma confissão de devoção a Deus, mas também romântica. Contudo, me rendi a ela. Fruto Sagrado, a partir do O Segredo aprendeu a compor canções com temas amorosos. A penúltima faixa, “O Sangue de Abel”, custei a captar o sentimento da composição, entretanto, quando captei, foi um choque introspectivo. A obra consegue unir perfeitamente a confissão de pecados e crítica social, religiosa e política. Vale citar versos: “Nos perdoe, ó Deus / Pelo imperialismo, o nazismo, o comunismo, / O capital selvagem, impiedoso, inescrupuloso / A escravidão… a religião… / Sempre querendo te domesticar / Te encaixotar, te fazer de empregadinho / Perdão, por tanto fariseu se dizendo filho teu / Que não convenceu, que só dividiu / Levando muita gente boa pro covil / Nos perdoe, ó Deus, pelo terrorismo / O holocausto, a pornografia, a pedofilia / A mentira! O dinheiro mal adquirido e mal repartido / A discriminação racial, social, irracional… / Nos perdoe, ó Deus!

    Juro que esses versos chocam o meu coração, conseguem atingir um ponto que poucas críticas conseguem. Aliás, todo o álbum consegue ter este feito. Citei dois trechos de canções, mas o disco é recheado de frases de efeito. Os arranjos do disco ajudaram na captação do conteúdo do disco. O hard rock com programações de DJ, unindo se aos drives de Marcão em “A Sanguessuga”, o peso dos riffs de guitarra e de baixo completando a revoltante letra em “De Deus não se Zomba”, os acordes de violão e o solo de cordas elétricas bem postos com a crítica de “O que na Verdade Somos”, o dedilhado natalino e o excelente violão de “Uma Noite de Paz”, a brasilidade fundida ao new metal em “Involução 2003”, o som da hipócrita “Ninguém Me Encontrará Entre os Fracos”, a balada com belos dedilhados de violão da apaixonante “Diferentes dos Anjos”, o dedilhado intimista com a boa participação vocal de João Alexandre da chocante “Sangue de Abel” foram muito bem produzidas. Enfim, discaço, merecia o primeiro lugar disparadamente. Foi injustiça o segundo lugar para a banda.

    Tiago: O Fruto Sagrado naquele momento chegava ao auge de tudo: sucesso, respeito do público e da pequena crítica, e ao extremo de suas crises. Acho curioso a banda ter chegado com um disco mais forte e coeso mesmo dentro destes contextos. Talvez, porque menos cabeças pensaram naquilo. Talvez. Mas o que vale pontuar são as misturas: o new metal já abraçado em O Segredo, as influências eletrônicas (dedo do Bene) e os elementos de maracatu e outros gêneros percussivos. As letras de Marcão são ácidas, fortes, tocam na ferida, lembrando-nos que em crise ou sem crise, não haveria nenhuma banda no cenário nacional do rock cristão como o Fruto Sagrado.

    [infobox title=’1º: Aeroilis’]Artista: Aeroilis
    Ano de lançamento: 2004
    Número de faixas: 13[/infobox]

    Aeroilis 2004Jhonata: Primeiro lugar com louvor! A primeira faixa, “Onde Encontrei Tudo”, já vem mostrando que o álbum tem muito (muito mesmo!) a mostrar. A princípio o que me incomodava nesse trabalho era a bateria, até que me acostumei e conclui que ela está do jeito que deveria estar. Não me incomoda mais, nem um pouco. As letras de Arvid Auras e Raphael Campos são de qualidade genial. Não acrescentaria nada e nem retiraria nada desse disco a não ser pôr uma versão acústica de “Silêncio”. As influências do rock inglês e californiana são indiscutíveis e de resto, deixo para que os meus colegas falem.

    João: Essa lista definitivamente foi a mais bizarra que eu já tive que comentar. Desculpem-me fãs do novo movimento, mas embora sim, esse disco é revolucionário, mas daí a ficar em primeiro… não… não mesmo. Enfim, as letras são fantásticas, o início de uma nova era, de abrir as mentes dentro do rock mainstream (porque isso de letras pensantes no metal e no punk cristão brazuca não era nenhuma novidade – Ressurreição, Foco Nocivo, Justa Advertência, Trino, Saint Spirit, Berith e Disharmonical Tempest, entre outras, tão aí pra provar isso), mas no máximo esse tinha que estar em terceiro lugar, eu acho. Enfim, é isso.

    Márllon: Me recuso a comentar.

    Thiago: Aeroilis em primeiro lugar? Sério, esse disco é legal, trouxe coisa nova, mas essa posição não poderia ter sido ocupada por ela. No máximo, o segundo lugar, ou até mesmo terceiro e quarto. A produção é boa, traz um bom pop rock e rock alternativo, com canções introspectivas. Contudo, o que poderia trazê-la ao pódio é ter sido justamente a criadora do querido novo movimento, uma onda musical que buscou quebrar o muro entre o “gospel” e o “secular”, de forma independente. Por ter sido a primeira banda do meio, isso é um fato muito importante, merece uma boa posição. O álbum Aeroilis, do mesmo nome da banda, é bem aberto com a faixa “Onde Encontrei Tudo”, uma das melhores. Um disco, para provocar interesse no ouvinte, preciso de uma boa faixa inicial e esse CD conseguiu isso. “Silêncio” e “Posso Ver” tem refrões que parecem uma continuação da outra, porém, esta última é melhor e consegue convencer com o resto da canção. “Em Suas Mãos” e o seu teclado tem uma vibe muito boa. “Sei que Passou” esbanja nas teclas novamente e essa faixa é uma das melhores. Os riffs de guitarra abafadas e os vocais duplos em “Os Teus Olhos” é uma boa faixa, quebra a quantidade de composições baseadas na mesma levada. “Sigo em Paz” é outra “Sei que Passou” nos pianos, tem um refrão pegajoso e impactante. O disco é dosado de muito intimismo e equilibrado. É uma obra interessante, mas primeiro lugar foi demais para ela. Desnecessário.

    Tiago: Talvez não seja o melhor disco da época. Mas é o mais importante. O disco de estreia da Aeroilis representou, a princípio, um rompimento total com o rótulo, o meio, o chamado público do “gospel”. Produzido e distribuído de forma completamente independente, o trabalho foi lançado exatamente naquela época em que os fóruns na rede começavam a fervilhar, e estes mesmos internautas mostravam suas insatisfações com os rumos do gospel (leia-se, principalmente, dotgospel). E, de longe, a banda conseguiu verbalizar isso melhor (Tanlan chega um pouco depois, com um EP em 2005). A musicalidade vai dentro do rock alternativo, com guitarras limpas, teclados, violão e vocais de Raphael pairando pela sonoridade e claro, com todas aquelas letras introspectivas, íntimas, mas nem um pouco apologéticas (exceto “Os Teus Olhos”). Os shows, um pouco “frios”, representavam um claro desprezo a toda a parafernália evangélica que, até hoje, encanta a massa. Lembro que aqui em Goiânia as músicas da banda tocavam numa das rádios, e tocaram aqui algumas vezes, mas eu era muito novo. Uma pessoa que eu conheci numa feira evangélica deu a definição perfeita para a música do quarteto: é aquele som ambiente que você ouve enquanto conversa no bar com amigos. Particularmente, se a Aeroilis ou o Fruto Sagrado encabeçassem a lista, estaria satisfeito. São dois grandes discos desta época de 2000 a 2004.


    A lista foi compilada através de votos dos participantes. Confira, nesta página, a quantidade de votos e os discos que ficaram de fora. Desta vez, Phil não pôde participar.

  • Melhores discos de rock cristão nacionais: 1995 a 1999

    Continuando a nossa lista de melhores discos de rock cristão nacionais, chegamos a segunda metade da década de 90, uma época bastante produtiva, em termos de rock cristão nacional. O ápice do boom, grandes bandas chegaram ao seu auge, musicalmente falando. Desta vez, o Resgate rouba a cena com a maior quantidade de discos na lista. Confira!

    Leia também as listas anteriores: Década de 70, década de 80 e 1990-1994

    [infobox title=’10º: A Revolução’]Artista: Catedral
    Ano de lançamento: 1998
    Número de faixas: 11[/infobox]

    Catedral - A Revolução - 1998Jhonata: Sem comentários!

    João: Achei uma lástima esse disco estar nessa posição, é um álbum fabuloso da Catedral, um dos melhores da banda, e o primeiro em que eles literalmente romperam de vez com a linguagem “religiosa”, colocando uma linguagem muito mais direta ao povo em geral, não uma música feita “só pra crente”, um mal que começaria ainda nessa década, mas que se alastrou a partir da década de 2000, literalmente fazendo o povo “voltar pra dentro da igreja” ao invés de trazer uma mensagem mais Para Todo Mundo (parafraseando o álbum seguinte deles). Eu mesmo na primeira vez que ouvi esse disco, em 2002 (um ano depois daquele caso lá daquela usina sonora [risos]) eu achava um disco bem bizarro, que quase não mencionava o nome de Deus, etc e tal. Só depois de um tempo vi como a ideia foi inteligente e hoje em dia virou até “modinha”, espero que as bandas do Novo Movimento tenham cuidado pra não fazer tal cosmovisão de qualquer jeito, ou as coisas podem ficar com muita polêMK, ops, polêmica sem direção (risos). Em suma, esse disco fez minha adolescência e digamos que foi um dos culpados por eu ser tão “perigosamente pensante” pra muitos.

    Phil: Esse é um álbum do Catedral que eu não reclamo. Eu não gosto da banda, acho meio “frankenstein” (umas coisas até interessantes mas que não rola juntá-las), mas A Revolução é bem feito. Um pop rock até bem ajustado, apesar da bateria meio esquisita – ou é detalhismo meu, que sou baterista – mas Cezar veio quebrando tudo com as guitarras. Não tenho muito a destacar, senão que foi o último álbum com a MK e foi bastante elogiado pela crítica, e não à toa entrou no nosso TOP 10.

    Thiago: A Revolução do Catedral, talvez, é um álbum até interessante para se estar numa posição melhor, mas eu o acho apenas bom. Kim já estava incorporando, em suas interpretações, performances que lembram totalmente Renato Russo. A banda seguia fazendo seu pop rock, misturado a outros gêneros musicais em algumas canções. Cezar é um bom guitarrista, e mostrou proficiência em alguns solos. É uma grande perda sua morte. A melhor música é “A Revolução”, com seus arranjos contagiantes, interpretações vocais eletrizantes e uma ótima letra sobre a verdadeira revolução. O álbum, aliás, é mais identificável pelas suas boas letras. “Os Filhos de Caim”, “O Sonho”, “Onde o Amor Reina” e “Por Te Conhecer”são boas faixas também. Porém, fiquei incomodado com o violão, inserido tão estranhamente em “Somos Todos Iguais”. Eu não sou o melhor para falar desse álbum, no entanto, creio que vale ter sido colocado na lista.

    Tiago: A Revolução é um disco muito importante para o Catedral e, aliás, deveria estar um pouco mais acima, hein? Já mostrando claramente o que queriam fazer nos anos seguintes, a obra mantém uma linguagem muito menos religiosa que nos outros discos, no entanto, aposta em algumas músicas radiofônicas, que deram o sucesso garantido. Só não consigo gostar de “A Revolução” que, francamente, me remete muito à “Perfeição”, do Legião Urbana (Do O Descobrimento do Brasil, de 1993). Destaque para “Somos Todos Iguais” e “Os Filhos de Caim”. Esta última contém riffs de baixo que só o melhor músico da banda, Júlio, poderia fazer. Foi o primeiro da banda que tive a oportunidade de ouvir inteiro.

    [infobox title=’9º: Asas’]Artista: Brother Simion
    Ano de lançamento: 1998
    Número de faixas: 10[/infobox]

    Asas - Brother Simion - 1998Jhonata: Para não ser arrogante e nem sair por “crítico que não entende de música”, eu opto por não comentar esse álbum.

    João: O maior sucesso do Brother, a primeira música que eu ouvi do mesmo, lá em 1998, no ano que lançou, tocava à exaustão na rádio Manchete Gospel FM 94.3 Recife e muito embora pra mim seja bem inferior musicalmente ante os discos Brother, Esperança, Na Virada do Milênio e Eclipse, é inegável a importância desse disco. Foi um dos meus iniciadores no rock cristão, gastei um dinheirão na época pra comprar o meu exemplar (eu era só um pré-adolescente, cara, não tinha grana nem pro chiclete direito [risos]), e o guardo com muito carinho até hoje. “Voaaaaaaar nas asas do Espírito de Deus”, uma mensagem que ficou na minha memória de 1998 até hoje, dá pra imaginar o quanto isso vale a pena né. Destaco também as faixas “Liberdade”, “S.O.S Terra” e a regravação de “Etéreo”, que pra mim ficou bem melhor que a original do Katsbarnea.

    Phil: Brother mostra de novo porque é um grande compositor (e compulsivo). O cara escreve um monte de coisas. Criatividade é o sobrenome desse cara, só pode, gente! É um álbum tão gostoso de ouvir. Tem umas boas doses de rock, pop rock, folk rock, mas é claro que viaja bastante, se não, não seria o Simion. Até axé entra no álbum. E nada mal, viu? Esse experimentalismo é marca dele, e mesmo assim consegue fazer um álbum com menos rock do que outros tantos grupos, mas que é bem melhor do que qualquer um desses outros. Esse, aliás, foi o último álbum solo do Brother antes de sair do Katsbarnea. Uma pena pro Kats, eu diria, mas Brother continua sendo uma referência de música cristã nacional e ganha um merecido nono lugar nessa lista.

    Thiago: Asas ocupou uma posição muito injusta pela qualidade do disco. Brother Simion caprichou nas composições, junto com Estevam Hernandes, e deixou-nos um rock com arranjos e uma produção musical bem feita. Os teclados foram destaques e as guitarras muito bem colocadas. Os riffs de guitarra e a gaita de “S.O.S. Terra”, “Hey, Brother”, canção com grandes influências dos Beatles, “Tempestade” e sua verve eletrônica e “I Hope You See the Light” são as mais legais do disco. “Canguru Águia” me incomodou demais, principalmente do barulho de percussão e sua pegada de lambada exagerada. O disco foi o maior sucesso de Simion e realmente é uma ótima produção. Merecia uma colocação melhor.

    Tiago: Eu sempre vou dizer que Brother Simion é o nosso Bowie do cenário nacional. Ele nunca cansa de experimentar e fazer algo diferente. Em carreira solo, com a presença de Amaury Fontenele na produção musical e participação de Paulo Anhaia no baixo, começou a trazer, levemente, o techno para suas músicas. Era uma tendência internacional, mas ia totalmente na contramão do que as bandas e cantores faziam no cenário nacional, com seus acústicos. É claro que isso seria aprofundado no disco seguinte, pois este ainda revela um hard “I Hope You See Light”, a gostosa “Hey, Brother” e preocupações acerca do meio ambiente, explícitas em “SOS Terra” e “Tempestade”, sem falar da faixa-título “Asas”, o maior sucesso da carreira solo do cantor. Gosto tanto deste disco que consegui comprá-lo recentemente, mesmo fora de catálogo.

    [infobox title=’8º: Angústia Suprema’]Artista: Rosa de Saron
    Ano de lançamento: 1997
    Número de faixas: 10[/infobox]

    Rosa de Saron - Angústia Suprema - 1997Jhonata: Este álbum não é um dos melhores da banda, mas é um bom álbum. Angústia Suprema é cheio de influências de hard rock e heavy metal. Inclusive, nessa época a banda bebia muito da banda Stryper, o que explica todo o peso das guitarras. Destaco as clássicas “Anjos das Ruas” e a faixa-título, “Angústia Suprema”.

    João: Meu primo Thiago Batinga é fã doente de bandas católicas, em especial Anjos de Resgate e Rosa de Saron. Católico do pé roxo, era de se esperar. Mas o Rosa que ele ouvia nunca me encheu os ouvidos, um pop rock mais manso que bandas como RM6 e Tempus. Mas daí eu ouvi falar de uma fase heavy metal da banda. Isso me chocou um bocado e eu fui lá ouvir. O Diante da Cruz, de 1994, embora mais importante, devido ser o primeiro disco de heavy metal católico do mundo lançado, não me agradou muito, seja pelo vocal ou pela qualidade da gravação mesmo, e por pouco desisti por completo da banda. Daí decidi dar outra chance e ouvi o disco seguinte, Angústia Suprema. Esse disco mexeu comigo demais, foi o extremo oposto do anterior. Realmente é um disco que não é pra muitos “tão bom assim”, mas pra mim é o momento que eu decidi ouvir mais sem preconceito nenhum, uma banda que numa música fala de Maria sem aquela devoção doentia de muitos católicos (“Linda Menina”) e faz um cover irado da banda Tourniquet (“Carregue os Feridos”), isso me fez querer ouvir outros sons dessa vertente religiosa, como Eterna, Testemunha, Beatrix, Extremo Unção e Ceremonya, entre outras.

    Phil: Rosa é outra banda que eu não sou tão fã, porém é mais fácil gostar de algo dela do que Catedral, e o Angústia Suprema é um rock com bastante pegada, viu. Achei bem “plug and play“, som direto, sem muita firula, apesar de o CD ter uma faixa introdutória e algumas faixas longas, o que não é nada demais, né? Bem redondinho, bem produzido, mereceu TOP 10 dessa meia-década 95-99.

    Thiago: Eu achei injusta a colocação dessa banda aqui. Rosa de Saron começou a progredir com entrada do Guilherme e Angústia Suprema não mereceu entrar nessa lista. Sem muitos comentários, é um disco da fase hard rock e heavy metal dela, e é muito mal produzido.

    Tiago: Se toda lista tem sua parte ruim, aqui está a desta. Ainda estou me perguntando o que este disco está fazendo aqui. O Rosa tinha um problema com a bateria… nos trabalhos mais antigos, ela quase nunca tinha peso (quer dizer, esse problema ainda persiste, de forma mais leve). A banda, tecnicamente falando, estava muito limitada para os demais grupos musicais da época. Particularmente, acho que as letras também não são muito fortes. No mais, não mereceu entrar entre os dez. Rosa é uma boa banda, tem bons discos, mas ainda é muito cedo para tê-la aqui.

    [infobox title=’7º: Demonocídio’]Artista: Antidemon
    Ano de lançamento: 1999
    Número de faixas: 27[/infobox]

    Demonocídio_-_Antidemon - 1999Jhonata: Estava no ensino médio quando ouvi o Demonocídio pela primeira vez. Estava começando a ouvir um rock mais pesado e, gostei da banda. Este álbum traz significantes influências para bandas cristãs do mesmo gênero. Tirando a bateria, que em boa parte do álbum é bem enjoante, o álbum é técnica e regularmente muito bom.

    João: Era 2002 e eu estudava no Colégio Adventista do Arruda, quando um amigo meu, Diogo Sobral, chegou na aula de informática e nos mostrou a capa desse disco, e colocou o mesmo pra rodar no PC. Pra mim, que de heavy metal só tinha ouvido aqueles metal farofa dos anos 80 (que minha mãe era muito fã) e uma ou outra banda como Bride e Guardian, aquele som foi o apocalipse, fora a capa com um “capetão” na capa (só um tempo depois entendi – e acabei gostando da ideia – que o capeta estava todo empalado, perfurado por espadas e condenado à destruição, portanto não era um louvor ao mesmo, e sim, como o nome do disco antecipava, um “demonocídio”). Imagino a reação de muitos ao ouvir esse que provavelmente é ainda o mais aclamado disco do metal cristão, de uma banda que no início era apenas uma iniciante no meio de várias outras como Devilcrusher, Theosophy, Calvário, Kletus, Martíria, Arcanjo, The Joke? e Afterdeath, entre outras do inicinho dos anos 90. A The Joke? até então era a banda com o disco mais pesado lançado, ainda que de maneira beeeeem artesanal, e tava mais pra um thrash groove que um death metal com pegadas de grindcore, que é o que o Antidemon apresentou nesse álbum. Apesar de ao longo dos anos a banda ter lançado bons discos, inclusive o impecável Apocalipsenow, Demonocídio permanece sendo um marco, um marco tão impressionante que hoje em dia, 13 anos depois do susto inicial, acabou que me tornou um dos seus frutos, já que death metal hoje em dia é uma das minhas praias prediletas (risos). Um “Massacre” à religiosidade e um chute de coturno nas portas do inferno.

    Phil: É hora de matar os capetas! AEEEEEEEHOOOOOOO! Cara, que emoção ouvir esse álbum. Como é incrível descobrir grupos nacionais antigos de grindcore e death metal e ainda por cima com temática cristã. Esse foi o primeiro full do Antidemon – só tinham um demo em fita cassete – e já balançou a cena rapidamente. Ah, e fez esse barulho todo de forma independente, como a maioria da turma estreante da época (e como boa parte do metal ainda circula hoje). Se você não curte o gênero, OK, mas se seus ouvidos aguentam de boa, certamente é uma grande escolha!

    Thiago: Apesar de eu não conseguir gostar de grindcore e essas vozes pig scream, Antidemon tem um grande mérito: inovou no meio cristão com um estilo totalmente inconvencional, e deu a cara a tapa com uma música bem anticomercial. O que me incomoda é eu não conseguir entender as letras gritadas por Batista, algumas meio sem sentido, meio “eu adoro expulsar Satanás”, muito antidemônio, como a própria banda chama. Digo quase o mesmo para os arranjos de todas as músicas. O álbum é bem grande, tem 27 composições, mas com faixas curtas, característica comum no grindcore. Algumas são tão estranhas que chega a ser bem zoeira, como “Libertação” e “Libertação II”. É difícil ouvir este CD esperando criatividade como um todo, porém é uma produção bastante engraçada e incomum. Foi justa a banda aparecer na lista por sua inovação.

    Tiago: Eu já conhecia a banda de nome há muito tempo, mas confesso que só fui conferir de mais perto quanto eles lançaram o fortíssimo disco Apocalypsenow, e foi uma grata descoberta. Antidemon é demais por sua proposta, e Demonocídio dispensa descrições ou comentários maiores, pois já é um clássico em seu gênero. Claro, tecnicamente a banda veio a melhorar muito mais em seus três discos mais recentes, mas aqui já vemos um death de respeito e bastante avassalador. É, de longe, a maior banda do gênero no nosso cenário.

    [infobox title=’6º: O Sentido da Vida’]Artista: Stauros
    Ano de lançamento: 1997
    Número de faixas: 11[/infobox]

    O Sentido da Vida - Stauros - 1997Jhonata: O Sentido da Vida é daqueles tipos de álbuns que quando você termina de ouvir pergunta: “e o resto?” Ele é incompleto. Não sei afirmar onde de fato ele peca mais, porém, afirmo que é expansivamente indesejável. A começar pela bateria fajuta e guitarra enjoante. Mas não é de todo ruim: tem lá suas particularidades positivas a exemplo de um bom vocal para o estilo heavy metal e, algumas de suas letras são bem poéticas.

    João: Calvário pode ter sido a pioneira dos discos com I.X.O.Y.E. (1993), seguida pelo The Joke com o The Death of the Brittle Biscuit (1995), Rosa de Saron com Diante da Cruz (1994) e pela própria Stauros com Vento Forte (1995), mas foi O Sentido da Vida de 1997 que se tornou o primeiro CD de metal cristão brasileiro lançado de maneira “profissional”, com uma qualidade inquestionável, lançado pelo selo Todo Som, que nada mais era que um selo da gravadora Gospel Records (que logo passou todos os lançamentos desse selo pro seu catálogo), catapultou a banda de Itajaí, Santa Catarina (é, uma banda de rock cristão de SANTA CATARINA [risos]) nacionalmente, e até hoje é um dos marcos do chamado metal cristão brasileiro, junto com o já citado Demonocídio da Antidemon. Os vocais de Celso de Freyn são excepcionais, e foi aquilo que mais me marcou desde a primeira audição. Hoje em dia um material raríssimo, os felizes possuidores de um exemplar original desse disco se orgulhem bastante, porque é um dos lançamentos mais icônicos da história (e se caso você não se orgulha, fale comigo que eu recebo seu CD com prazer).

    Phil: Meu Deus! Essa década só fica melhor e melhor! Só rock bom, cara! UUUUHUUUUU! Esse álbum é o segundo da banda e foi reconhecido até internacionalmente de tanta qualidade, e realmente é um grande trabalho de hard rock/metal progressivo. Muito bem gravado, bastante qualidade técnica pra uma banda que tinha pouco tempo na ativa, e letras bem escritas. É sem dúvidas um clássico.

    Thiago: O Sentido da Vida é um álbum com velocidade, técnica e peso do heavy metal e metal progressivo. A voz de Celso de Freyn é bem diferente, com aqueles  interpretações melódicas e rasgadas clássicas do metal. A introdução aguda e gritada do vocalista em “A Guerra Final” me fez esperar algo na linha do Stryper no disco, mas só ficou na impressão. É um disco que desce, mas meu conhecimento da banda é fraco para analisar profundamente o álbum. Quem espera virtuosismo achará, pois é melhor, musicalmente falando que um outro disco ali em cima.

    Tiago: Como eu já disse, senti falta da banda Calvário na lista anterior. Mas pelo menos este clássico do Stauros está aqui. Talvez o primeiro disco totalmente metal que ganha um destaque maior fora do underground, O Sentido da Vida é historicamente importantíssimo: um som com pegada meio heavy/thrash, aqui vemos uma banda enérgica e procurando sair do lugar comum. É um bom trabalho.

    [infobox title=’5º: O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar’]Artista: Fruto Sagrado
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 11[/infobox]

    O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar - Fruto Sagrado - 1995Jhonata: Faço do título desse álbum meu comentário sobre o mesmo.

    João: Mais uma previsão acertada a contento meu (risos). Bem, muita gente sei lá porque malha esse disco, falam coisas como “cópia de Dream Theater” e similares, mas eu não entendo: o que nesse mundo no fim das contas não é uma “imitação”? Na verdade, esse disco tem muito mais elementos do som clássico e hard rock da banda, apesar de inegavelmente possuir muitos arranjos que lembram bastante Dream Theater, mas não só ela, também lembram muito em alguns momentos Rush e Queensrÿsche. OK. Estou procurando até agora qual o problema, enfim. Esse álbum é fantástico, e a linguagem que o mesmo possui é genial, embora sem dúvidas tenha causado e muito na época, já que o “gospel” já havia terrivelmente criado padrões até do que seriam “letras aceitáveis para bandas cristãs”. Até hoje essa praga persiste no meio dos “fãs de música gospel”, pois se uma banda cristã não se rotula como tal, logo na cabeça de alguns ela está “traindo o Evangelho”. É claro que isso não significa Thallequismos, ops…

    Como o primeiro disco do FS que eu ouvi na vida, esse disco me fez viajar pacas e quebrou muitos paradigmas meus e até hoje o refrão de “Retórica”, que é o enorme título do álbum, ecoa na minha mente e seria ótimo que ecoasse na de tantos “religiosos” desse país e desse mundo.

    Phil: Entramos no TOP 5. O papo ficou sério agora. Aqui é o auge do Fruto Sagrado. Talvez não o auge da acidez (mas pra época acho que foi) ou da técnica, mas do conceito de “Fruto Sagrado” mesmo, porque depois de 2000 a banda nunca mais foi a mesma. O fato é que esse conjunto da obra, nascido em 1995, é o melhor álbum deles e isso é praticamente um axioma, uma afirmação matemática daquelas que você olha e diz “é isso mesmo” e pronto, não há como ser falsa. O álbum é bom mesmo, é digno de ser escutado mesmo, e pronto, “cabou”, vai logo atrás de ouvir que cê tá perdendo tempo!

    Thiago: O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que Só Falar foi pautado no metal progressivo, influenciado pela gringa Dream Theather, e manteve, nas letras, as críticas religiosas e políticas que caracterizam o Fruto. Até aquele momento, as produções foram boas e medianas. Esse disco teve ótimas músicas como “A Missão”, uma letra que fez referência a JOCUM (Jovens com uma Missão), as guitarras de Internal War (versão em inglês de “Guerra Interior”), a crítica política de “Podridown”, a reflexão amorosa de “Nosso Erro”, contudo, deixou algumas canções estranhas e fracas como “Presente”, cuja combinação de peso e letra romântica ficou bastante nonsense (como misturar água e óleo), uma letra meio desconexa sobre o estilo da instrumentalização de “Música” (música pesada do Fruto Sagrado tem que ter letra ácida crítica, senão não desce) e uma produção musical que deixou a desejar. No entanto, em resumo é um bom álbum e merece a posição de quinto lugar. Destaque a capa que possui uma aparência bem brasileira.

    Tiago: Confesso que eu tenho uma relação um pouco estranha com esse disco. Por vezes gosto e acho incrível, em outros momentos sinto que é meio “forçado”. O Fruto Sagrado tem uma discografia bem lógica. Os álbuns foram crescendo em qualidade e pretensão progressivamente, exceto em O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar, de longe o trabalho mais pretensioso do grupo fluminense. Fortemente e escancaradamente influenciado pelo Dream Theater, aqui eles tentaram um som mais pesado, letras muito complexas, mas a produção musical não soou muito legal, até mesmo inferior a Na Contramão do Sistema (1992). Mas vale ser ouvido por sua tentativa, e por conter canções fortes e polêmicas, como “Retórica” e “Podridown”. Na época em que ouvi este trabalho pela primeira vez, custei pegar a “matemática” das letras. Isso é bom.

    [infobox title=’4º: Resgate’]Artista: Resgate
    Ano de lançamento: 1997
    Número de faixas: 8[/infobox]

    Resgate  - Resgate - 1997Jhonata: De todos os trabalhos do Resgate que já ouvi, esse é o que considero mais pop da banda. “Terceiro Dia” é a minha favorita desse disco (gente, ouçam os primeiros 3 segundos dessa música e o seu dia já vai tá valendo a pena) e, é claro que, o Resgate para mim é um grupo muito fraco em letras. Não sei se é pelo meu costume de ouvir Rosa de Saron (pós-Olhando de Frente EP) que suas letras não são Ctrl C + Ctrl V da Bíblia, e sim histórias da vida e coisas que vivenciamos, mas eu dou mais crédito para bandas cristãs (o que são poucas) que tenham letras mais profundas e que vão além de colas de versículos bíblicos.

    João: Paulo Anhaia. Esse cara é o Rei Midas do rock! (risos) Exageros à parte, este disco do Resgate a princípio eu não ia tanto com a cara porque as letras pra mim eram bem confusas (mesmo caso do A Revolução da Catedral e do álbum do Fruto Sagrado), mas depois, exatamente como os já citados anteriores, este disco me conquistou. A mudança da sonoridade também meio que me morgou um pouco, APESAR QUE eu conheci o Resgate no Praise, que era bem calminho comparando-se a esse até, mas com o tempo este realmente me pegou pelo ouvido. “E Daí” que esse disco tem poucas músicas (8, sem contar com a faixa anônima escondida após “Em Todo Lugar”), a mensagem dele já antecipava o que o Resgate produziria de alguns anos pra cá, e que eles já faziam de mansinho em todos os discos, mas nesse eles chutaram o pé na porta, de um jeito que tal qual o já citado do Fruto Sagrado, na época causou uma estranheza terrível. Novamente a religiosidade boba afetando a mente até dos “antirreligiosos” do rock “gospel”.

    Phil: Aí sim, fomos surpreendidos novamente! Esse disco é muito louco. A começar pelo fato de não ter sido masterizado. Não vou explicar o que significa pra não ficar enorme (só digo que corrige/equilibra algumas coisas) e muito produtor arrancaria os cabelos só de saber disso. Além disso, tem uma cara meio vintage e experimental, comparado com os anteriores (principalmente o On the Rock), com letras complexas e profundas. Pra mim é difícil falar de Resgate sem parecer fanboy, então falando da produção, Paulo Anhaia fez um belo trabalho aqui. E a bateria, cara… a graça de fazer arte é fazê-la imperfeita e imprevisível, e o timbre da bateria é fantástico sem a master, se melhorassem ia estragar. Eles saíram da caixa do hard rock e foram passear no britpop/britrock, com os quais continuam flertando até hoje. 🙂

    Thiago: Resgate dominou o período 95-99. Buscando novas experimentações, o grupo ousou um rock britânico com guitarras fritando e vibrantes no álbum Resgate, de 97. Esbanjando criatividade e inovação, o disco integrou muitas canções boas, listo “Liberdade”, “E Daí” e “Terceiro Dia” como bons exemplos, porém é um CD que só se vale a pena ouvir por inteiro. “No One” e a segunda parte de “Em Todo Lugar” apresentam um folk rock daqueles que só se ouvem no gringo. A produção das guitarras foram bem colocadas, com a vibe britânica. Ótimo álbum, posição justa.

    TiagoResgate foi um dos melhores, e talvez o último disco realmente bom do Resgate por muito tempo. Aliás, sua turnê foi acompanhada por ótimas apresentações da banda juntamente com os caras da Oficina G3. A obra tem seu tom claramente questionador, com letras complexas e versos bem trabalhos, mas que também conta com arranjos primorosos. É um trabalho liricamente e instrumentalmente anticlichê. Neste época, a banda começa a se mostrar bastante atraída pelo rock britânico, e apresenta, aqui, a sua versão do britpop. É um som de vanguarda, pois, se você parar para pensar, só o Skank faria algo parecido no mainstream do cenário nacional, e em Cosmotron (2003). É certamente curioso como um disco que sequer foi masterizado ter uma orgânica tão agradável.

    [infobox title=’3º: Armagedom’]Artista: Katsbarnea
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 12[/infobox]

    Armagedom - Katsbarnea - 1995Jhonata: Sem comentários (muito ruim!)

    João: Esse pódio está estranhamente perfeito na minha opinião, acho que é a primeira vez que eu curti o pódio, inclusive as posições que os discos ficaram. Bem, ESSE álbum do Katsbarnea, que pra mim é O MELHOR da discografia inteira da banda e um dos melhores discos de rock cristão ever, foi um dos mais vendidos da cena lá na década de 90 (muito pelo sucesso gigantesco de “Gênesis”, possivelmente, mas o disco é muito bom no todo). Daí você puxa a ficha de quem produziu o disco e… Paulo Anhaia. De novo. Citar ele agora vai até parecer um fanatismo sem dúvidas (risos).

    Um dos discos mais autênticos da década de 90, Armagedom finalmente deu uma identidade sonora à banda que andava meio “perdida” no anterior Cristo ou Barrabás (apesar de eu achar o disco muito bom, mas é inegável a evolução incrível apresentada no seguinte). Além da balada arrasa quarteirão chamada “Gênesis”, o disco possuí ótimas faixas como a meio progressiva “Invasão”, o heavy metal orquestral de “Armagedom”, o punk rock de “Crack”, o reggae-rock de “Pra Onde Você Vai, Brother?”, o forrock de “Alegria” e o surf rock de “Do Céu”. Fora a piadinha crítica habitual do Brother na faixa “Fariseu”, com um experimentalismo a lá Pink Floyd e até Duca Tambasco fazendo ponta cantando erudito ([risos] essa faixa é muito zoeira); o mais notável é que esses elementos já constavam no Cristo ou Barrabás, mas nesse disco realmente saiu muito melhor. Imperdível, esse disco foi o primeiro do Kats que eu ouvi na vida, e sem dúvidas o que mais me marcou, com uma das melhores (senão a melhor) formações da banda.

    Phil: Não querendo ser malvado mas já sendo: obrigado, Paulinho Makuko, por ter ido passear fora da banda por um tempo. Ao meu ver, a ausência daquelas percussões todas em álbuns anteriores fez um bem danado pra banda! Brother Simion pareceu mais loucão agora que temos um rock “de verdade” nas faixas que são rock, e pra mim as letras subiram uns degraus na qualidade. Deixaram pra trás a parte mais pop oitentista e amadureceram um bocado. Paulo Anhaia também assina a produção aqui. Déio Tambasco (guitarra) e Jadão (baixo) deram um grande up no trabalho, embora Brother Simion continue sendo a cara da banda.

    Thiago: Resumo do Katsbarnea até o Armagedom: superações e deslizes juntos em vários álbuns, o som terrivelmente chato do Makuko tocando percussão, uma voz não muito legal do Brother Simion, letras interessantes, músicas ora legais, ora fracas. Resumo do Armagedom: progresso enorme da banda, na qualidade musical e na produção. É um discão de prog rock/metal, heavy metal, com experimentações excêntricas do hardcore punk. A influência do reggae no álbum foi bem perceptível em algumas faixas do álbum, mas as melhores são as mais progressivas. Brother Simion arriscou gritos guturais que eu achei demais. Deixou Jean Carlos no chinelo. Apesar de algumas músicas do disco serem meio indefiníveis, ele contém canções dignas de muito elogio, musicões mitantes. As progs “Invasão” , “Armagedom” , “Fariseu” e o southern rock “Get Out of Babylon” são E-X-T-R-A-O-R-D-I-N-Á-R-I-A-S. E todo esse mérito que a obra tem, Déio Tambasco teve uma fundamental participação. As gravações de guitarras do álbum ficaram excelentes. Disco bom, vale a pena conferir.

    Tiago: Esse TOP 3 está lindo de se ver! Após o forçado enxugamento da formação, que matou a estabilidade da formação do Kats (não me canso de falar disso), a banda tinha que encontrar o seu caminho. Embora Cristo ou Barrabás tenha seus pontos fortes, é um disco meio aborrecido, mas ao ouvir Armagedom você percebe que eles encontraram um rumo. O rock experimental, então, era a vertente perfeita para o Katsbarnea. Brother Simion, então, parece carregar a banda em suas costas. Isso, de fato, não é uma ofensa para os demais da banda, pois o disco reserva grandes performances de Déio Tambasco e Jadão, mas o que o nosso vocal faz neste disco não é brincadeira: vocais, piano, harmônica, teclado, guitarra e, claro, assina todas as músicas. Paulo Anhaia (você lerá muito ainda este nome) chega pra somar e enriquece a produção do disco, que conta com “Invasão”, “Do Céu” (que música!), “Crack – Atos 4:11” e “Fariseu”, sem falar nas ótimas camadas de teclado de Giovani Bon, que dão um ar sombrio a algumas canções.

    [infobox title=’2º: Indiferença’]Artista: Oficina G3
    Ano de lançamento: 1996
    Número de faixas: 15[/infobox]

    Oficina G3 - Indiferença - 1996Jhonata: Eu gosto muito desse álbum do Oficina e acho merecida a sua colocação. A versatilidade de vozes nesse disco é muito melhor que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante (e olha que eu amo Los Hermanos). O peso nas guitarras e bateria foram muito bem encaixados, nada de exageros. Destaco a faixa-título, “Espelhos Mágicos”, “Davi” e “Fé”.

    João: O melhor disco do Kats, seguido pelo melhor do Oficina, é lógico. E, advinha, Paulo Anhaia de novo… (muitos risos). Um festival de hard rock de melhor qualidade, é isso que esse disco injeta nos ouvidos de todos, e não a toa pra muitos é o melhor disco do rock cristão brasileiro supremo (apesar que o disco seguinte nessa lista supera muito a esse). O talento nato de Juninho Afram, Duca Tambasco e Jean Carllos (que até hoje são a formação base do Oficina desde então), juntamente à bateria precisa de Walter Lopes e dos vocais soberbos e inacreditavelmente perfeitos pro hard rock de Luciano Manga, que nesse disco se despedia da banda e chega a ser irônico que com sua partida a sonoridade básica que tanto encantou no Oficina foi embora com ele.

    OK, eu conheci Oficina G3 no primeiro Acústico, o de estúdio, lá em 1998 (um amigo meu me mostrou e eu viajei como poderia haver rock cristão, e desse disco, junto com o Asas do Brother, me introduziram nesse mundo, mal eu tinha virado “crente” [risos]). Mas quando se compara com cuidado e atenção a fase original com o que viria a seguir, você acaba tendo meio que a minha atitude quanto a isso: vira fã incondicional do Oficina com Manga e um cara que até tem um certo apreço pelo quesito saudosismo da fase “popcina G3”, mas nada mais além disso. Indiferença foi o primeiro disco que o Oficina mostrou letras mais “urgentes” pro mundo ao seu redor e também uma sonoridade profissional, que não deixa a desejar nenhuma banda de glam metal/hard rock cristã dos anos 80 lá dos “isteitis”.

    Phil: Clássico é pouco pra falar desse álbum. Agora vou chutar o pau da barraca: sou fanboy de Oficina mesmo! (risos). Podemos considerar esse álbum como sendo o grande marco da era Luciano Manga, com tantas canções lembradas até hoje. Aposto que você conhece aquele irmão mais antigo que canta “Indiferença” ou “Espelhos Mágicos”. Tudo bem que o álbum Acústico que veio depois contribuiu pra amaciar a sonoridade e espalhar a fanbase, mas o que dizer do clássico (e difícil!) solo introdutório de “Glória”? Eu só acho que ainda faltou um “quê” nas letras, algo que se foi com Túlio Régis, mas é sem dúvidas mais amadurecido que o álbum anterior, e lançou a banda a lugares bem mais altos, consolidando seu espaço na música cristã como um todo.

    Thiago: Indiferença é outro clássico da lista. Considerado pelos fãs mais oldschool como o melhor álbum do Oficina G3, mostrou a evolução da banda e demonstrou o que o G3 é capaz de fazer. Afram e seus dedos virtuosos e sentimentais exibiu técnica e musicalidade do início ao fim, Duca Tambasco mitou no baixo, Jean Carlos deu sua contribuição e o saudoso Walter Lopes mostrou quem era na bateria. Esse quinteto pode não ser reconhecido como a formação clássica, mas foi o que mais fez história na banda. O brilhante solo de Juninho na faixa “Glória Ist.” foi o melhor de todos, brilhantismo que foi mantido na interpretação da música cantada. “Davi” abriu muito bem, com a faixa-título sendo a segunda melhor. Duca contribuiu bastante também no seu curto – mas valioso – instrumental, “Duca’s Jam”, e em “Contra Cultura”, música que teve a melhor performance de Jean Carlos em seus teclados. Manga fez sua parte como vocalista. Ainda rendeu a progressiva “Your Eyes” e “Your Eyes II”, a cantada e seu instrumental subsequente. Hard rock, heavy metal, blues rock e rock progressivo direto do forno pode-se apreciar nesse projeto que exala muita técnica. “Rei de Salém”, com sua vibe açucarada demais, e “Magia Alguma” não me agradaram.

    Tiago: Eu gosto muito de Indiferença e sou daqueles sujeitos que o defendem como melhor disco da banda. Não é questão de saudosismo, mas a evolução lírica, técnica e instrumental deste trabalho, para a época, é notável. Se Jean Carllos estreava, Duca Tambasco e Waltão arrebentavam e Luciano Manga brilhava como vocalista, o que dizer de Juninho Afram? De coadjuvante, se tornou protagonista, escrevendo sozinho a maioria das músicas, tornando-se o principal compositor da Oficina e até intérprete em várias faixas. “Glória Inst.” é a coisa mais brilhante deste grande álbum, que ainda nos surpreende pelas belas baladas “Magia Alguma” e “Novos Céus”, sem falar nos hards “Davi”, “Indiferença”, “Espelhos Mágicos” e “Não Temas”. Outra beleza que vejo no disco é “Your Eyes”, para mim, uma das melhores e mais subestimadas músicas do G3.

    [infobox title=’1º: On the Rock’]Artista: Resgate
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 14[/infobox]

    Resgate - On the Rock - 1995Jhonata: Certa vez me disseram pra ouvir 5:50 AM do Resgate como se tivesse ouvindo “Sem Você” do Rosa de Saron, ou seja, é o clássico mais conhecido da banda. Confesso que gostei da música e, como já disse em postagens anteriores, gosto da banda. O que mais me agrada neste disco são as guitarras. Finalmente um disco dessa lista com guitarras agradáveis de começo ao fim.

    João: ON THE MARVELOUS ROCK!!! Praticamente escrevi essa review dos 10 discos da lista com esse disco rolando no meu PC. O disco que eu mais ouço do rock cristão, hoje e sempre. Como já falei no disco Resgate de 1997, o meu primeiro contato com a banda do Zé Bruno, Jorge Bruno, Hamilton e Marcelo foi com o Praise de 2000, que é sem dúvidas um dos melhores discos da banda. Mas um certo dia, em 2002, 2003, não lembro ao certo, pedi emprestado ao pastor Carlos Alberto (Carlão) da minha velha Renascer Beberibe que eu fazia parte na época, esse disco. Eu queria muito ouvir devido ao fato de ter visto os caras do Resgate tudo cabeludão, igual à matéria da Revista Gospel Nº 2 (dezembro/2001) que mostrava várias fotos de shows antigos da banda. Fiquei imaginando o som que eles faziam, já que na época o que rolava era o Acústico da banda (por sinal também muito bom, e foi o primeiro disco de rock cristão que eu comprei na vida). Quando ouvi esse petardo, foi um momento meio “decisivo” pra mim. Eu já na época queria ouvir e tocar uns sons mais “pesados”, embora ainda não fosse uma coisa bem determinativa (acho que só em 2005, há 10 anos atrás, que eu realmente comecei a “entrar de cabeça” nesse som). E assim, On the Rock se tornou meu disco predileto.

    Mais uma produção de Paulo Anhaia, provavelmente a primeira dele com bandas “cristãs”, e ele já chegou destroçando tudo, porque esse é sem dúvidas o melhor disco que ele produziu, com letras precisas, hard rock bem medido, falando de solidão, problemas sociais, hipocrisia religiosa e até humor (temática que começou no disco anterior Novos Rumos com o cover de “Florzinha”, e que seguiu adiante em vários discos da banda até hoje). Acho que não tenho mais o que falar desse disco, senão vai ser repetitivo, o que posso dizer é: QUE DISCO!

    Phil: Abram alas pro campeão. Cara, se for pra fazer um apanhado do rock cristão nacional de todos os tempos esse álbum fica no TOP 5 fácil. O mito Paulo Anhaia ataca novamente e fez um grande trabalho, aparando as arestas dos caras e os direcionando no hard rock de uma forma mais expressiva que os álbuns anteriores. Ficou muito redondinho. Bem feito demais. Os caras soavam muito melhor. Aqui, os temas das letras variam mas carregam diferentes temáticas de uma forma meio satirizada, que se tornaria a marca do Resgate ao longo dos anos. Parece que as canções conversam com a gente, digo, pelo linguajar mesmo. E do On the Rock saiu o que (dizem) é o maior sucesso da banda: “5:50 AM”. É um CD pra ninguém botar defeito, e não digo isso pelo jargão!

    Thiago: On the Rock foi descrito como um clássico da banda Resgate, mas apesar de eu preferir Ainda não É o Último, é um ótimo trabalho musical. O disco reuniu músicas com sonoridade hard rock com flertes ao heavy metal, mais pesado que os álbuns anteriores e muito melhor, tanto musicalmente, quanto conceitualmente. A obra teve a música de maior sucesso da banda e uma das melhores deles, a fera 5:50 AM, uma bela canção sobre solidão. As humorísticas “Papo de Lóki” e “Fogo” são hilárias, mas o sarcasmo de “Fogo” é bem neopentecostal. “Doutores da Lei” incorpora uma crítica aos fariseus, apimentada pelo hard rock. Os riffs magnéticos de guitarra eletrizam e atrai do início ao fim. “He’ll Come Again” é a única mediana do álbum. On the Rock, Indiferença e Armagedom ocuparam com muita justiça o pódio da lista de 95-99.

    Tiago: Primeiro lugar merecido, embora sei que alguns dos meus colegas vão discordar. Nos discos anteriores, o Resgate ainda tentava se encontrar, e com Paulo Anhaia chegaram onde queriam. On the Rock é o registro de uma banda vibrante, alegre, deslumbrada pela possibilidade musical que encontraram. Há algo muito particular no quarteto, já observado nos dois anteriores, que não encontramos em nenhuma banda ou cantor cristão da época: o humor cínico. Este álbum é repleto dele. A banda trata de temáticas seríssimas de forma despojada, como o isolamento social (“Solidão”), morte (“Vida”) e até o diabo (“Fogo”). Mais pesado, o disco foi gravado ao vivo, e é pancada. Vale destacar, também, as fortes críticas em “Doutores da Lei” e a balada mais repetidamente regravada da banda, “5:50 AM”. Os riffs de Zé Bruno e Hamilton estão afiados, a cozinha pega fogo e nas catorze faixas não perde o fôlego. Para um ano em que o Brasil começou a vibrar com os Mamonas Assassinas, o Resgate já evoluía o seu humor desde 1991, curiosamente ao lado do Creuzebeck. De longe, o seu melhor trabalho e um dos melhores álbuns da década.


    A lista foi compilada através de votos dos participantes. Confira, nesta página, a quantidade de votos e os discos que ficaram de fora.

  • Rocklogia – O início do metal cristão no Brasil

    I.X.O.Y.E. Esta frase, traduzida para Jesus, Cristo, Deus, Filho, Salvador é o título do primeiro álbum de metal cristão brasileiro. A banda Calvário, de terras paulistas produziu este trabalho em 1993, época em que o rock cristão estava em seu auge, considerando a ascensão de várias bandas novas. Era hora do metal mostrar sua cara, e este disco é bem representado. Há de considerar que, à frente do seu tempo, o álbum é muito maduro. Com influências claras de Led Zeppelin e Black Sabbath (mesmo sendo bandas de hard rock) e, principalmente de Judas Priest, o heavy metal do grupo é bem construído, e além do instrumental, as letras das canções são bastante instigantes.

    Calvário surgiu em 1992, alcançou reconhecimento até no meio secular devido à qualidade do disco, mas logo se dissolveu por conta de discordâncias entre os integrantes em relação ao som da banda. O grupo se reuniu poucas vezes: uma delas foi em tributo ao Stryper. Mais recentemente, a banda voltou à ativa com uma formação diferente de vinte anos atrás, mas com alguns membros daquela época. Além da Calvário, outras bandas de heavy metal surgiram como Kletos e Martíria.

    De vertentes mais pesadas do metal surgiram muitas bandas, mas a mais conhecida, até os dias de hoje é o Antidemon. Fundada em 1994, o grupo de death metal produziu  demos e coletâneas até lançar Demonocídio em 1999, que se tornou um sucesso na carreira do grupo. Hoje, com vinte anos de carreira a banda soma vários álbuns lançados no Brasil e em vários países do exterior. Satanichaos e Apocalypsenow foram seus lançamentos subsequentes.

    A cena metal ganhou mais força ainda quando o Stauros lançou, em 1997 o álbum Sentido da Vida. Ganhando projeção, o grupo lançou ainda alguns títulos com canções em inglês, mas se dissolveu. Agora, mais recentemente o grupo voltou à ativa e em breve lançará novos trabalhos.

    É importante salientar que outras bandas da época, que não possuem ligação direta ao metal lançaram músicas do gênero. O Fruto Sagrado, certamente é o exemplo mais conhecido. O álbum O que a gente faz fala mais do que só falar, distribuído em 1995 possui influências evidentes do metal progressivo. Nos anos 2000, as influências do metal alternativo no som do grupo foram mais claras ainda. Mas isso é assunto para outro post…