A influência da música folk e da poesia trouxe ótimos cantores ao meio cristão, como Os Arrais, Bruno Branco e a Marcela Taís. Nos últimos anos, se vê um crescimento grandioso do novo movimento no Brasil, revelando músicos com grande capacidade letrística e musical.
Neste contexto surge o novo álbum de Marcela, Moderno à Moda Antiga. O disco foi lançado em 2 de junho pela Sony Music, produzido por Michael Sullivan, músico com uma longa trajetória no ramo. As fotos para a capa e encarte foram produzidas por Bruno Fioravanti, e o design gráfico foi criado pela própria Marcela Taís, em parceria com seu irmão, Max Munhoz. Combinando com a temática do título do CD, o projeto gráfico da obra traz um ambiente country com traços antigos, igualmente o conjunto das músicas, tanto conceitualmente como musicalmente. O resultado foi o primeiro lugar no iTunes.
A primeira canção já revela o propósito fonográfico do disco inteiro. Ame Mais, Julgue Menos é um country tratando sobre o nosso julgamento parcial, sem conhecer a realidade de quem levantamos como réu. A interpretação de Marcela Taís é a mais adulta em comparação a todo o álbum anterior que já conhecemos, e essa mudança não sugere um avanço, mas uma perca do melhor valor de Taís, que é sua leveza, simplicidade e jovialidade tanto nas composições como nas interpretações. Vale ressaltar o banjo que durou o arranjo inteiro, identificando-a.
Moderno à Moda Antiga, a faixa-título, é um folk que traz toques de acordeon para equilibrar-se com a concepção da letra, que se trata justamente de costumes antigos os quais estão se perdendo na sociedade.
Muita Calma Nessa Alma é uma obra notavelmente feminina conceitualmente falando. Tem um belo arranjo, superando as duas primeiras canções neste quesito, porém a feminilidade desta chega a ser quase um clichê.
Risco é uma combinação de poesia e reggae, se destacando acima de todas as anteriores. Com a participação especial de Salomão do Reggae, Marcela Taís conseguiu combinar perfeitamente uma boa letra e um bom arranjo na mesma faixa, resgatando a leveza e a simplicidade que marcava seu estilo, assim, trazendo traços de Cabelo Solto, seu primeiro CD.
A quinta música é a mais contrastante do álbum, e talvez a melhor. Quando É Amor é um folk romântico à lá retrô, dando ênfase na interpretação vocal de Marcela Tais, que soube usar dos agudos de uma forma doce, e relembrando sons das décadas de 60 a 90.
Sou Diferente conteve participação especial de Paulo César Baruk, e já se mostra a música mais agitada do álbum, com influências do rock dentro do estilo próprio de Marcela. Relata sobre ser diferente nesse mundo, e que isso às vezes é visto como piada, brega, porém é a única coisa diferente neste mundo igual.
A sétima do conjunto, Voar é embalada por um piano. É uma composição lenta, para refletir sobre a eternidade, e a seguir, outra bela poesia como a contida em “Risco”. O arranjo é perfeito para o assunto tratado nesta faixa, e a combinação lhe torna, também, uma das melhores do disco.
Partir é outra balada do álbum, tratando sobre deixar passar algumas coisas na vida em virtude de coisas melhores.
Naufrágio peregrina pelo blues, e novamente conta com belos desempenhos vocais de Marcela Taís, e inspiradores riffs e solos de guitarra. A faixa trata-se de um clamor para que Deus venha salvar o eu lírico.
A canção Homem de Verdade é um pop rock que fala sobre os valores masculinos, uma composição que se localiza como uma peça diferente no meio de uma obra tão feminina. Apesar de versar sobre a masculinidade, não deixa de ter o próprio toque feminino, pois se refere justamente a gostos de uma mulher.
A décima primeira música do álbum, Conselho de Amiga, apresenta uma lição de autoajuda para sofrimentos amorosos de garotas. O próprio título demonstra essa ideia, mas assim como “Muita Calma Nessa Alma”, soou um pouco clichê, com mais intensidade do que a terceira canção. Conta com a participações de Anayle Sullivan, esposa de Michael.
Espera por Mim é uma balada romântica, um assunto a qual Marcela já andou bastante. A última canção, Pequena Alegria, é um retorno como “Risco” ao estilo simples e leve da vocalista cantar. Acompanhada por ukulele, é uma espécie de “Naquela Rua” 2, exibindo uma bela letra que versa sobre a simplicidade das pequenas alegrias que temos na vida, e que com essas curtas dádivas seríamos felizes para sempre. Outra esplêndida canção.
Em suma, o álbum conta com arranjos levados pelo country, reggae, folk, blues e rock, uma combinação de influências antigas com o que pode ser chamado de moderno. Canções como “Moderno à Moda Antiga” e “Pequenas Alegrias” expuseram perfeitamente o conceito do registro, da mesma maneira que outras produções que, não plenamente, girou em torno deste assunto. Porém, a temática mais abordada neste álbum seguiu-se em direção à questões relativas ao público feminino. Músicas como “Muita Calma Nessa Alma” e “Conselho de Amiga”, foram as que declaradamente andaram sobre essa linha, mas outras composições do álbum se encaixam no eixo, mesmo que indiretamente.
Apesar de Marcela Taís soar jovial em suas interpretações vocais, suas canções mais belas sempre foram as que tratavam a leveza e a simplicidade da vida, em torno de tanta competição e materialismo da sociedade moderna, como “Naquela Rua”, sua melhor criação. E justamente nesta fase de construção de pensamentos em que os adolescentes se encontram, estas ideias de Marcela Tais são ótimos temas para se tratar. No entanto, o lançamento da intérprete soou também juvenil conceitualmente falando. Tratar desilusões, problemas de garotas sem parecer clichê, imaturo, ou com o “complexo de princesa”, pode ser uma tarefa nem um pouco tão fácil, e é neste tópico que a artista pecou, assim como errou um pouco no primeiro álbum com a canção “Menina, Não Vá Desanimar”. Este disco soou demasiadamente teen, principalmente com composições como “Muita Calma Nessa Hora”, “Conselho de Amiga”, mas, contudo, Marcela com sua voz doce e que se encaixa perfeitamente em produções alegres, soltas e desapegadas, também trabalhou com ótimas músicas como “Risco”, “Pequenas Alegrias”, dentre outras. A compositora poderia aprofundar mais nesses tipos de melodias.
O CD buscou ter uma face mais retrô, inclusive nos temas, porém, Marcela abriu mão de letras mais poéticas, para mais diretas, e isso decaiu também o seu valor. A cantora poderia ter sido mais metafórica com os assuntos abordados, e menos presa a conceitos, assim soaria mais poética e, logo, trataria melhor os assuntos, como no Cabelo Solto.
As melhores da obra em um todo, tanto na ideia como no arranjo, são as “Quando É Amor”, “Risco”, “Pequenas Alegrias” e “Voar”. Faixas como “Muita Calma Nessa Alma”, “Naufrágio” tiveram arranjos espetaculares, no entanto, são letras que não nivelam com a qualidade das demais. “Sou Diferente”, “Homem de Verdade”, “Conselho de Amiga”, “Ame Mais, Julgue Menos”, “Moderno à Moda Antiga” foram bem produzidas, e apenas “Partir” e “Espera por Mim” soaram medianas. Portanto, Marcela fez uma boa participação vocal, a banda de apoio cumpriu sua parte, teve uma ótima produção gráfica, e cumpriu a proposta que pretendia, embora poderia ter dado outra face, outro conceito às canções.
















