Já faz um tempo que o cantor Thalles Roberto – conhecido pelo grande sucesso de que goza dentro da chamada cena gospel brasileira – vem anunciando que, no intuito de ampliar cada vez mais o alcance de seu trabalho, irá investir na produção e divulgação de músicas não necessariamente religiosas, embora ancoradas, em essência, nos princípios que professa. Até aí, tudo bem – ou “quase tudo bem” –, afinal de contas, muito antes do cantor mineiro, artistas como, por exemplo, a banda Catedral ou os próprios norte-americanos do Sixpence None The Richer já haviam feito algo semelhante, alcançando, inclusive, bons resultados – não sem provocar, é claro, certo alvoroço em meio aos seus fãs mais “ortodoxos”.
O problema, no caso de Thalles, é que o músico parece ter escolhido expressar o desejo de fazer essa “reconversão musical” da maneira menos elegante possível: durante uma apresentação em Brasília, realizada no mês de Julho, declarou, em alto e bom som, que já teria feito “tudo o que tinha pra fazer no meio gospel”, sugerindo, ainda, que permanecer nesse meio seria o mesmo que se acomodar, já que “música gospel é tudo igual” e “qualquer um escreve e faz”. Além do mais, na cena gospel nacional só teria “gente fraca” – disse o cantor – e, uma vez em meio a “gente fraca”, ele estaria “acima da média”, daí a necessidade de aceitar o desafio “divino” de conseguir colocar-se acima da média do lado de fora desse universo restrito, e, portanto, de frente para um maior e mais diversificado público. Uma polêmica em muito desnecessária, visto que seu mais recente trabalho, intitulado As Canções Que Eu Canto Pra Ela, lançado em Abril deste mesmo ano – e pela gravadora Universal Music –, já confirmava as intenções de Thalles.
De qualquer modo, o fato é que, considerando o nível de exigência – nem tão elevado assim – do chamado mainstream brasileiro, o disco As Canções Que Eu Canto Pra Ela é, sem sombra de dúvidas, forte o bastante para apresentar Thalles como um sério candidato a enfrentar o desafio de colocar-se “acima da média” dentro deste vasto, diversificado e não necessariamente religioso mundo pop. Para um cantor e compositor que, como bem mostra o já citado disco, melhor se identifica com a chamada black music –, foi ele próprio, inclusive, quem disse, num de seus shows, que gosta mesmo é de “música de preto” –, nada como uma boa revigorada no contrabaixo, a fim de deixá-lo insinuante o suficiente para que soe o mais próximo possível de uma contagiante e arrebatadora “música de preto”. Por que não acrescentar, também, guitarras mais ousadas? Com solos idem? Mesmo porque o disco, em certos momentos, pede isso – além de riffs mais insistentes, claro! Investir mais nos muito bem acertados “flertes” com ritmos como o samba – a exemplo do que ocorre com a faixa Isso É Amor –, ou mesmo o baião – tal qual se nota em Minha Menina –, certamente daria uma “cara” mais abrasileirada e, portanto, mais atraente, ao groove do talentoso músico.
Por fim – e de um modo geral –, As Canções Que Eu Canto Pra Ela convence… e traz um Thalles que, se souber potencializar ainda mais sua própria música, poderá, sim, formar um novo, fiel e merecido público aqui do “lado de fora dos portões do templo”.
Texto originalmente publicado em “Maik Pop Blog”.